Chá sem ser de chá - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Chá sem ser de chá

É das coisas mais tristes — para nós, portugueses, que ensinámos os ingleses a beber chá, quando a pobre Catarina de Bragança casou com o sacana do Carlos II da Inglaterra — que chamemos chá a infusões de plantas que nada têm a ver com a planta do chá.

Dizer «chá de tília» ou «chá de camomila» é como dizer «café de nêsperas» ou «café de malmequeres». Ou «tabaco de camélias». Fica-nos mal. O que resta da classe trabalhadora inglesa ainda chama a uma caneca de chá com leite uma cuppa cha. Os indianos, que tantos bons chás têm, chamam chai ao chá com leite com muito açúcar que gostam de beber. Até os japoneses chamam cha ao chá.

Não sei onde os portugueses foram buscar a palavra chá.1 Só sei que, entre os candidatos possíveis — da Índia e do Ceilão até à China e ao Japão —, nenhum deles usa o nome das deliciosas e infinitamente variáveis de plantas e folhas do chá para falar de inferioríssimas tisanas com outras plantas que reagem à água quente.

A semana passada, numa boa mercearia aonde fui para comprar chá, dei com uma longa prateleira de caixinhas auto-intituladas de chás (de hortelã-pimenta ao diabo-a-sete) onde não havia nem sequer uma caixinha de chá. Nem Lipton´s. Nem sequer em saquinhos.

Partilhei a minha exasperação com o patrão — e ele, como filósofo sempre curioso que é, respondeu: «É verdade. Anda tudo trocado.» E riu-se, com generosidade, encolhendo e repetindo «Há chá de tudo menos de chá...»

Porque é que será? 

1 N. E.: Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (edição electrónica de 2001), a palavra chá resulta de um empréstimo do mandarim ou mandarino (na China, a língua da administração) ao português: «ch[i]n[ês] (dialeto mandarino) ch´a (ind[o]-ing[lês] cha, chaw, pouco us[ado]); segundo Dalg[ado], ao ideograma ch[i]n[ês], representativo da planta do chá, correspondem duas f[ormas] fonéticas: ch'a no dialeto mandarino e te no dialeto Fun-kien; a primeira foi adotada pelo Japão, pela Indochina, por Portugal, pela Grécia, pela Rússia e pelas línguas eslavas; a segunda, introduzida na Europa pelo hol[andês] thee < prov[eniente] do mal[aio] téth, pelas outras nações européias, bem como pelas línguas malaio-polinésias [...].»

O Online Etymology Dictionary confirma esta informação, precisando que o empréstimo do mandarim ch´a se fez em Macau, mas não fazendo referência ao papel de D. Catarina de Bragança na introdução do hábito de tomar chá entre os britânicos:

«[tea] 1650s, earlier chaa (1590s, from Port[uguese] cha), from Malay teh and directly from Chinese (Amoy dialect) t´e, in Mandarin ch´a. The distribution of the different forms of the word reflects the spread of use of the beverage. The modern English form, along with Fr[ench] thé, Sp[anish] te [sic], Ger[man] Tee, etc., derive via Du[tch] thee from the Amoy form, reflecting the role of the Dutch as the chief importers of the leaves (through the Dutch East India Company, from 1610). First known in Paris 1635, the practice of drinking tea was first introduced to England 1644. The Portuguese word (attested from 1550s) came via Macao; and Rus[sian] chai, Pers[ian] cha, G[ree]k tsai, Arabic shay, and Turk[ish] çay all came overland from the Mandarin form.»  (tradução livre: «[a palavra tea está atestada desde] à volta de 1650, anteriormente chaa (à roda de 1590, do português chá), do malaio teh e directamente do chinês (dialecto amoy) t´e, em mandarim ch´a. A distribuição de diferentes formas da palavra reflecte a difusão do uso da bebida. A forma em inglês moderno, a par do francês thé, do espanhol , do alemão Tee, etc., surge por via do holandês thee, derivado da forma em amoy, reflectindo o papel dos Holandeses como principais importadores da folhas de chá (por intermédio da Companhia Holandesa das Índias Orientais, a partir de 1610). Conhecido primeiramente em Paris em 1635 , o costume de beber chá foi introduzido pela primeira vez em Inglaterra em 1644. A palavra portuguesa (atestada desde c. 1550) veio de Macau; e o russo chai, o persa cha, o grego tsai, o árabe shay e o turco çay foram transmitidos pelo mandarim por via terrestre.»

Sobre o autor

Nasceu em Lisboa em 1955. É doutorado em Filosofia Política, pela Universidade de Manchester, Inglaterra. Desde 2009 escreve diariamente no Público e, em 2013, passou a ser autor da Porto Editora, a quem confia a obra inteira. Publicou entre outros: A causa das coisas (1986), O amor é fodido (1994), A vida inteira (1995), Explicações de Português (2001). Mais aqui.