Belém - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Belém

«Na linguagem oral, a mistura de pessoas gramaticais ("Você fez o que te pedi?" ou "Tu falou", por exemplo) é tão comum no Brasil, que é impossível não ficar surpreso quando se vai a Belém e se ouve a segunda pessoa do singular como se emprega em Portugal», observa o professor Pasquale Cipro Neto, em artigo publicado originalmente na revista Veja, em 2007.

Estive em Belém, capital do Pará para proferir duas conferências.

Tudo ótimo, do pessoal que organizou o evento, as inúmeras pessoas que compareceram e assistiram as palestras. É claro que nessas ocasiões presto muita atenção no que ouço.

Nada de procurar erros, pelo amor de Deus! O que me fascina não é descobrir as particularidades da linguagem de cada comunidade, de cada grupo social.

E a linguagem dos paraenses mais especificamente a dos belenenses é particularmente interessante.

«Queres água?», perguntava educadamente uma das pessoas que participaram da equipe de apoio. O pronome tu, da segunda pessoa do singular, é comum na fala dos habitantes de Belém. Com um detalhe: o verbo conjugado de acordo com o que prega a gramática normativa, ou, se você preferir, exatamente como se verifica na linguagem oral em Portugal.

Em Lisboa e em Belém, é muito comum ouvir «Foste lá?», «Fizeste o que pedi?», «Trouxeste o livro?»,«Queres água?», «Sabes onde fica a rua?». Inevitável lembrar uma canção de uma dupla da terra, Paulo André e Rui Barata («Beira de mar, como um resto de sol no mar, como a brisa na preamar, tu te foste de mim»). «Tu te foste», diz a letra, certamente escrita assim pelo letrista Rui Barata, exatamente como dizem as pessoas em Belém. A cantora Fafá de Belém, equivocadamente, gravou fostes. Uma pena! Fostes serve para vós: «vós fostes».

O que se ouve em Belém foste, fizeste, queres não é comum em qualquer região do país. Em boa parte do Brasil, é frequente o emprego do pronome tu com o verbo conjugado na terceira pessoa:"Tu fez?", "Tu sempre faz isso?", "Por que tu não estuda?", "Tu comprou o remédio?". Para a gramática normativa, isso está errado. Se o pronome é tu, o verbo deve ser conjugado na segunda pessoa do singular: «fizeste, fazes, estudas, compraste», nas frases anteriores. Na linguagem oral, a mistura de pessoas gramaticais ("Você fez o que te pedi?" ou "Tu falou", por exemplo) é tão comum no Brasil, que é impossível não ficar surpreso quando se vai a Belém e se ouve a segunda pessoa do singular como se emprega em Portugal.

Aliás, Belém tem forte e visível influência portuguesa, a começar pela bela arquitetura. Ainda segundo a gramática e segundo o uso lusitano, vivíssimo quando se usa tu, não se usa lhe. E aí a roda pega, até em Belém, onde, apesar dos verbos e do sujeito na segunda pessoa, às vezes se ouve o pronome lhe: "'Foste lá? Eu lhe disse que devias ir." Qual é o problema? O pronome lhe se usa para você, senhor, senhora, Excelência, ou qualquer outro pronome de terceira pessoa. Na língua formal, tu e lhe não combinam.

Não custa repetir que todas essas observações têm como base a gramática normativa, que, na linguagem oral, ou seja, na fala, como se vê, não é aplicada integralmente em nenhum canto do Brasil.

O que fazer? Nada de histeria. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Nada de imaginar que se deva exigir de todo brasileiro, na fala, o cumprimento irrestrito das normas lusitanas de uniformidade de tratamento. E nada de achar que não se deve ensinar isso nas escolas, que não se deve tocar no assunto. Afinal, a uniformidade de tratamento está nos clássicos brasileiros e portugueses, está na língua viva, oral de Portugal e de outros países de língua portuguesa.

Está até na poesia brasileira deste século. E também na música popular da Bossa Nova («Apelo», de Baden e Vinicius, por exemplo: «Meu amor, não va¡s embora, vê a vida como chora, vê que triste esta canção; eu te peço: não te ausentes, pois a dor que agora sentes...») a Chico Buarque («Acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos pra tomares conta, me conta agora como hei de partir»; versos de «Eu Te Amo», música de Tom Jobim e letra de Chico Buarque.

Não custa repetir: na língua culta, formal, é desejável a uniformidade de tratamento. Quando se usa tu, usam-se os pronomes te, ti, contigo, teu. Quando se usa você, senhor, Excelência, usam-se os pronomes o, a, lhe, seu.

E também não custa pesquisar um pouco, ler os clássicos e os modernos.

Ou fazer uma bela viagem a Belém e lá tomar o tacacá. E ouvir algo como "Fizeste o trabalho?".
(…)

Fonte

Texto publicado na revista Veja, 2007.

Sobre o autor

Pasquale Cipro Neto, professor brasileiro de português. Colaborador da Folha de S. Paulo desde 1989, é o autor e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, transmitido pela Rádio Cultura AM (São Paulo) e pela TV Cultura, e do programa Letra e Música, transmitido pela Rádio Cultura AM.