Ser discreto nos Açores
Um regionalismo semântico
Santa Cruz das Flores, 9:46. Entro na sala de refeições do Hotel Servi-Flor para tomar o pequeno-almoço. Todas as mesas estão livres, excepto uma com uma senhora que fala ao telemóvel. Pelo sotaque, percebo que é açoriana. Atiro-lhe um sorridente bom-dia quando ela me olha, escolho uma mesa perto da porta e trato de me servir.
Pouco depois, a senhora levanta-se, dirige-se à saída e diz-me, ao passar por mim:
– You can use the coffee cup that’s on my table. It’s clean, I didn’t use it. [«Pode usar a chávena de café que está na minha mesa. Está limpa, não a usei.»]
– Muito obrigado.
– Ah, é português, senhor? Peço desculpa, mas é que parece mesmo estrangeiro.
– Nem sempre as coisas são o que parecem.
– É bem verdade, senhor.
– Veja este pequeno-almoço, por exemplo – digo-lhe enquanto abro os braços sobre a mesa, num gesto largo.
– Não compreendo, senhor.
– Numa ilha, onde se espera que as coisas sejam insulares, o hotel serve pequenos-almoços continentais.
– Ah… Nunca tinha pensado nisso. O senhor parece ser muito discreto (*).
– Ora aí está outra coisa que parece.
(*) Nos Açores, discreto tem o sentido que podeis ver na imagem abaixo (Dicionário Priberam).

Publicação do autor na sua página de Facebook (17/04/2026).
