Crónica do Falar Lisboetês (Bis) - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Crónica do Falar Lisboetês (Bis)

Juro que não pratiquei nenhuma das malfeitorias que o estimado escritor e publicista Baptista Bastos me imputa com inesperada ligeireza, na sua coluna de sexta-feira passada no "Diário Económico" [aqui disponível, também], onde me acusa severamente de, na minha última crónica, ter troçado da fala lisboeta e de querer um sotaque único para a língua portuguesa.

Quanto à maneira de falar lisboeta, limitei-me a apontar duas ou três das suas particularidades mais notórias para os de fora, aliás de modo necessariamente incompleto (por exemplo, não referi a pronúncia de palavras como "rio", "frio" e outras semelhantes, em que o "i" tem um som breve e não um som longo, como no resto do país). Mas fi-lo com o mesmo benévolo desprendimento com que referiria as peculiaridades da fala portuense ou beirã, ou algarvia ou açoriana, para não citar as da minha região natal, onde o "v" não existe e onde "vinho" e "velho", por exemplo, soam a "binho" e "belho" (o que me valeu outrora forte troçados meus condiscípulos do liceu, obrigando-me a uma oportuna reciclagem de pronúncia).

Não estão obviamente em causa as idiossincrasias locais nem o respeito pelas especificidades culturais, nesta como noutras áreas. Longe de mim defender qualquer unicitarismo linguístico. Trata-se, pelo contrário,de combater a consumação de um. O meu ponto tem a ver justamente com o facto de os particularismos lisboetas se estarem a generalizar na pronúncia corrente no país, em prejuízo do padrão geral até há pouco aceite (e dos demais dialectos e sotaques locais).

O que eu questiono é esta mudança "forçada", que consiste em universalizar o que era privativo de Lisboa, só porque esta domina os meios audiovisuais nacionais, que nesta matéria são hoje decisivos (para além do descaso do ensino de português nas escolas). O que eu contesto nesta pendência é o império do lisboetês (ou seja, o português à moda de Lisboa), que se vai expandindo e que vai reduzindo tudo o resto, tanto as demais falas locais ou regionais como a própria a língua padrão tradicional, a desprezíveis "provincianismos", que é a maneira de desqualificar, a partir de Lisboa, tudo o que se distinga da capital (e que na maior parte das vezes coincide com o mais crasso desconhecimento do resto do país).

Além disso, não posso deixar de lamentar essa evolução linguística também em termos de desenvolvimento do português como língua que não é somente nossa, não apenas porque a forma como se fala entre nós está a ficar inçada de sons francamente desagradáveis (uma sucessão de "ches"e de "jes"), mas também e sobretudo porque assim ela se vai tornando cada vez mais cerrada e incompreensível, mesmo no contexto da lusofonia, especialmente para os brasileiros. Não creio que seja de aplaudir esse resultado. Será que ainda partilhamos uma mesma língua quando a comunicação oral deixa de ser possível entre os seus falantes?

De resto, por mais encanto que encontremos na diversidade do modo de falar do Cais do Sodré (em lisboetês correntio pronuncie-se:"caich'dré"), das Avenidas Novas ou da linha de Cascais, isso não basta para apoiar a promoção de um particularismo linguístico ao estatuto de padrão linguístico nacional. Não consta, por exemplo, que o "Queen's English" esteja em vias de ser substituído como norma do inglês britânico pela fala das docas de Londres ou por qualquer outro localismo londrino. O que eu penso é que Lisboa não tem o direito de "impor" ao resto do país, a golpes de emissões de rádio e de televisão,o seu particular modo de pronunciar a língua de todos nós.

Tudo isto tem obviamente a ver com o domínio lisboeta da comunicação audiovisual de âmbito nacional, tanto em termos de "agenda" como em termos de pessoal. Segundo o seu critério corrente, tudo o que interessa a Lisboa há-de, por definição, importar necessariamente ao resto do país (mesmo que se trate, por exemplo, do estado do trânsito na capital, acerca do qual são regularmente informados todos os portugueses de manhã à noite, desde Melgaço a Vila Real de Santo António, se não à Calheta e à ilha do Corvo), enquanto que nada do que se passa fora de Lisboa pode pretender assumir relevância nacional, por maior que seja a sua importância absoluta.

Aqui há alguns anos, o incêndio da câmara municipal de Lisboa mobilizou as estações de rádio e televisão nacionais em prolongados "directos", transformando-o numa tragédia nacional. Se o mesmo desastre tivesse ocorrido, por exemplo, na câmara municipal de Coimbra, ainda que envolvesse o adjacente convento de Santa Cruz, provavelmente o facto não mereceria mais do uma menção de passagem num breve "flash" do noticiário regional do dia seguinte.

O mesmo unicitarismo lisboeta se nota, de resto, na paisagem humana das referidas estações nacionais, onde a percentagem de gente de fora de Lisboa e adjacências entre os apresentadores, locutores, comentaristas, convidados e "tutti quanti" não é seguramente superior à percentagem de portugueses na população de Macau, depois do fim da administração portuguesa. Apesar da criação do CNL, que aliás a solícita TV Cabo se encarrega de pôr em casa de todos os portugueses (não fossem eles perder o que se passa na capital), a RTP e a RDP (tal como as restantes estações supostamente nacionais) continuam a comportar-se, não como estações nacionais, que deveriam ser, por estatuto e vocação de serviço público nacional, mas sim como estações regionais de Lisboa. Não seria de mudarem o nome para RTL e RDL?

Cf. os textos em contraponto desta controvérsia, Contra o "sotaque único", Crónica do Falar Lisboetês e O Lisboetês, o Coimbrês e Outros Sotaques (I).

Fonte

In diário português "Público" de 11 de Janeiro de 2000.

Sobre o autor

Vital Moreira (Vilarinho do Bairro, 1944) é Professor associado da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi deputado do Partido Comunista Português na Assembleia Constituinte (1975-1976) e deputado independente do Partido Socialista em 1995. Atualmente colabora no Diário Económico e no Público e é autor de uma série de obras, das quais se destacam: A ordem jurídica do capitalismo (1987), Fundamentos da Constituição (1991) e A morte do centro (1998).