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AMALIA: futuro da língua também passa por aqui

Um modelo de linguagem para o português europeu

«O valor do AMALIA está na qualidade linguística e na possibilidade aberta de qualquer um, empresa ou cidadão, o executar localmente, estudá-lo e melhorá-lo.» 

O que têm em comum o lançamento do LLM AMALIA e o primeiro drone da Tekever e da marinha portuguesa em 2014? Ambos foram sujeitos a um coro de críticas extemporâneas[1]. A Internet está desde sempre cheia de veredictos definitivos, com entusiasmo a mais e conhecimento a menos… A Tekever, e 12 anos volvidos, de meme[2] passou a empresa líder mundial! 

Por isso comecemos por enquadrar: AMALIA é um acrónimo de Agente Multimodal Automático de Linguagem com IA. É um grande modelo de linguagem (LLM) desenvolvido de raiz com um objetivo muito claro: compreender e produzir português europeu. Tem na sua essência um aspeto que, para mim, é crítico: é verdadeiramente aberto. Não disponibiliza apenas os pesos do modelo; inclui também o código de treino, os dados utilizados e um relatório técnico detalhado. É a diferença entre oferecer um bolo ou partilhar não só a receita, como também os ingredientes e a cozinha.

O projeto resulta do trabalho de investigadores portugueses, incluindo da Universidade de Coimbra com financiamento da FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia] e do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]. O treino decorreu no Barcelona Supercomputing Center, e partiu do modelo EuroLLM 9B, mas foi afinado para privilegiar o português europeu. Isto pode parecer irrelevante, mas qualquer utilizador de inteligência artificial (I. A.) sabe como a maioria dos modelos rapidamente deriva para o português do Brasil e nos brinda com os habituais ônibus, trem ou café da manhã. O mérito do AMALIA está precisamente em preservar a nossa variante linguística.

Grande parte dos dados veio do Arquivo.pt, depois de um enorme trabalho de limpeza, filtragem e anonimização para garantir qualidade e conformidade com o RGPD [Regulamento Geral sobre a Proteção de dados]. O resultado não foi um modelo treinado com “mais dados”, mas com melhores dados e mais transparentes.

Li algumas opiniões sobre o modelo, mas muitos avaliaram-no de forma errada: fizeram-lhe perguntas de cultura geral, encontraram uma ou outra resposta imprecisa e concluíram que «não presta»… jornalistas e a TV fizeram eco e isso revela um equívoco comum sobre o que é um LLM. Um modelo de linguagem não é uma enciclopédia. Ele apreende padrões da língua, mas não memoriza todos os factos do mundo. Além disso, usamos a I. A. diariamente com o ChatGPT ou o Gemini, que não são apenas um modelo, são sistemas completos, com pesquisa na Web, memória e outras ferramentas. Não se podem sequer comparar.

O valor do AMALIA está na qualidade linguística e na possibilidade aberta de qualquer um, empresa ou cidadão, o executar localmente, estudá-lo e melhorá-lo. Mais do que um modelo, o AMALIA representa um passo importante para a afirmação da língua portuguesa na era da I. A.

Num mundo onde empresas globais têm vindo a concentrar a capacidade em I. A., investir em capacidades próprias significa reforçar a autonomia tecnológica, estimular o nosso ecossistema científico e criar conhecimento que pode beneficiar toda a comunidade lusófona. Sim, é possível construir tecnologia aberta, transparente e verdadeiramente adaptada ao nosso idioma!

Sejam curiosos e explorem: 

https://amaliallm.pt

Ou no GitHub:

https://github.com/AMALIA-LLM/AMALIA
https://github.com/orgs/AMALIA-LLM/repositories

[1 N. E. – A Tekever é uma empresa tecnológica portuguesa (cf. Wikipédia), referida na comunicação social de Portugal como «empresa-unicórnio» e como fabricante de drones, entre outros equipamentos, nos setores da tecnologia da informação (cf. "Portugal tem um novo unicórnio. Conheça a Tekever, a empresa que produz drones", Forbes, 07/05/2025). Chama-se unicórnio a uma empresa nova ou em fase incial de desenvolvimento e avaliada em mais de mil milhões de dólares (ibidem; ver também aceção 5 da entrada unicórnio no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa). Este uso de unicórnio, cujo significado básico é de «animal fabuloso semelhante a um cavalo branco com um chifre na fronte, símbolo de pureza e virgindade» (Infopédia), tem origem no inglês, língua em que unicorn, que tem a mesma proveniência e significado que a palavra portuguesa, começou a denotar certo tipo de empresas: «Foi a fundadora da Cowboy Ventures, Aileen Lee, que em 2013 utilizou pela primeira vez o termo “unicórnio” no artigo “Welcome to the unicorn club: learning from billion-dollar startups”. De acordo com Lee, empresas unicórnio são empresas tecnológicas que atingiam o valor de 1 bilhão de dólares (mil milhões de euros) sem estarem cotadas na Bolsa e cujos negócios têm o foco normalmente no consumidor e não em serviços ou produtos para empresas» (António Rodrigues, "A sua empresa é ou um unicórnio", ISG-Instituto Superior de Gestão, 07/06/2022.]  

[2 N. E. – O termo meme, de origem inglesa, aplica-se a uma «publicação (imagem, vídeo ou outro conteúdo) cujo original é alterado para efeitos humorísticos e que se difunde rapidamente através da Internet » (dicionário da Academia das Ciências de Lisboa).]

Fonte

Artigo de opinião publicado no jornal Diário As Beiras, em 14 de julho de 2026, e aqui divulgado com pequenas adaptações.

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