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Obrigatoriamente facultativo: o FIM DA ORTOGRAFIA

Mais um artigo  anti-Acordo Ortográfico do linguista  português  António Emiliano, no "JN" de 13 de Julho de 2008. Desta feita, foca a alegada a instabilidade ortográfica gerada pelo nova reforma ortográfica da língua portuguesa do ponto de vista do ensino-aprendizagem.

 

Alguém, por favor, explique ao País [Portugal] como se vai ensinar uma criança a escrever com a «ortografia unificada do português» (é assim que o Acordo Ortográfico de 1990 lhe chama) e como uma criança que já saiba escrever e que seja apanhada entre ortografias vai conseguir lidar com a insanidade acordortográfica a meio do seu percurso escolar.

Como se explicam coisas como as que se seguem?

COR-DE-ROSA escrever-se-á com hífen, por causa da consagração pelo uso, mas COR DE LARANJA sem hífen, porque não. Que tem o uso a ver com ortografia? Se algumas pessoas passarem a conduzir sistematicamente pela esquerda ou a passar sinais vermelhos, tais práticas serão consagradas pelo uso, em vez de serem violações do Código da Estrada? Quantas vezes será preciso escrever mal até que os erros passem a ser "formas consagradas pelo uso"?

Como se explica a acentuação em coisas como as que se seguem? PÁRA (verbo) deixa OBRIGATORIAMENTE de ter acento e escrever-se-á PARA, não se distinguindo da preposição PARA. Mas PÔR (verbo) manterá OBRIGATORIAMENTE acento para se distinguir da preposição POR. PODE (pret. perf.) terá FACULTATIVAMENTE acento (PÔDE) para se distinguir de PODE (pres. do ind.). FORMA (substantivo) terá FACULTATIVAMENTE acento (FÔRMA) para se distinguir de FORMA (verbo e substantivo). Mas ACORDO, ACERTO, CERCA, etc. (substantivos) OBRIGATORIAMENTE não terão acento e não se distinguirão de ACORDO, ACERTO, CERCA, etc. (verbos). DEMOS (pres. do conj.) terá FACULTATIVAMENTE acento (DÊMOS) para se distinguir de DEMOS (pret. perf.). Mas PODEMOS (pres. do ind.) OBRIGATORIAMENTE não, e não se distinguirá da forma PUDEMOS (pret. perf.).

Como perceber o que é facultativo e o que é obrigatório? Como entender o que se mantém para distinguir e o que se não mantém apesar de distinguir?

RACIONAMOS, FRACIONAMOS e ACIONAMOS (pret. perf.) terão FACULTATIVAMENTE acento para se distinguir de RACIONAMOS, FRACIONAMOS e ACIONAMOS (pres. do ind.). FRACIONA(Á)MOS terá também FACULTATIVAMENTE um C mudo. Porquê? Porque no Brasil a consoante é pronunciada. Como no Brasil se escreve com C nós podemos continuar a escrever em Portugal com C. Mas ACIONA(Á)MOS não terá C mudo OBRIGATORIAMENTE - ACCIONÁMOS ou ACCIONAMOS serão erros ortográficos. Porquê? Porque no Brasil a consoante não é pronunciada: como no Brasil se escreve sem C em Portugal não se poderá continuar a escrever com C.

DECEÇÃO e RECEÇÃO terão um P mudo facultativo, não porque a letra E se pronuncie com vogal aberta (isso não tem importância nenhuma para os autores do Acordo, como eles próprios afirmam), mas porque no Brasil se escreve com P. Mas CORRECÇÃO e INTERSECÇÃO passarão a ser erros ortográficos porque no Brasil se escrevem sem C. Alguém consegue explicar isto a miúdos de 10-12 anos apanhados entre ortografias? Para sabermos escrever bem em Portugal teremos de saber como se escreve bem no Brasil. Isto fará algum sentido para uma criança ou jovem em idade escolar ou para algum professor?

Como será um manual escolar unificado? Haverá listas de formas com consoantes mudas facultativas e listas de formas com consoantes mudas proibidas, com hífenes consagrados pelo uso e hífenes proibidos, e com acentos facultativos, obrigatórios e proibidos? Terá de haver, forçosamente, pois não há regras que iluminem o uso da nova ortografia. Os professores, enquanto não conseguirem decorar essas listas, terão de andar sempre com elas debaixo do braço nas aulas e na correcção dos testes dos alunos.

Os professores poderão FACULTATIVAMENTE ensinar as grafias que preferem? Cada professor e cada aluno escolherá FACULTATIVAMENTE a forma correcta que mais lhe agradar? Ou será por ano, ou por escola, ou por distrito? E quando um professor fundamentalista que escreve Ps mudos (autorizados pela norma culta brasileira, bem entendido) faltar e for substituído por um professor fonético que não escreve Ps mudos? Muda OBRIGATORIAMENTE a ortografia nesse dia na sala de aula? E os encarregados de educação, como farão para esclarecer os menores a seu cargo e os acompanhar nos seus estudos de português?

Aprender a escrever e a ler é uma tarefa portentosa e difícil, que requere a aquisição de hábitos, rotinas, regras, disciplina e repetição de padrões, comportamentos e usos. Como se aprende sem estabilidade no processo de aprendizagem?

Como foi possível chegar-se a este ponto em que se tem que explicar o obviamente inexplicável, e em que o obviamente inargumentável tem que ser argumentado? Que processo de involução cultural se abateu sobre nós que nos trouxe a esta conjuntura bizarra, em que o absurdo evidente do AO é que tem que ser explicado e demonstrado (como se não fosse evidente) e a sua não aplicação é que tem que ser justificada (como se ninguém percebesse o desastre que é)?

Fonte
in "JN", 13 de Julho de 2008

Sobre o autor

António Emiliano (Lisboa, 1959) é um linguista, professor e músico português. É doutor em Linguística Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa e professor na mesma instituição. É sócio fundador da Associação Portuguesa de Linguística e da Associação Internacional de Linguística do Português, membro cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores.