Acordo Ortográfico: esquisso do acordista - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Acordo Ortográfico:
esquisso do acordista

Artigo crítico ao Acordo Ortográfico e aos que o defendem. In jornal “Público” de 18/08/2012.

Tenho pouco jeito para o desenho e não gosto de generalizações. Evito dedicar-me a ambas as actividades pela mesma razão: a forte possibilidade de falsear a realidade. No entanto, o tempo que tenho passado na polémica acerca do Acordo Ortográfico tem-me permitido reunir alguns traços que, com maior ou menor frequência, surgem no retrato daqueles que defendem o Acordo.

O primeiro aspecto a considerar reside no facto de que raramente um acordista cita o Acordo, tentando demonstrar a sua validade. Na maior parte  dos casos, fica-se com a estranha impressão de que o acordista não terá, sequer, lido o Acordo.  Noutros casos, o acordista acaba por reconhecer a existência de incongruências, mas prefere desvalorizá-las, com o argumento de que qualquer acordo é melhor do que a inexistência de um acordo.

A importância do Acordo, aliás, é defendida por se considerar que é a tábua de salvação da língua. Sem o Acordo, e, portanto, sem o peso do Brasil, o português europeu passaria a ser uma língua rapidamente extinta. O acordista considera esta asserção tão evidente que se dispensa de a demonstrar, como se dispensa de demonstrar como é que a sobrevivência de uma língua depende tão completamente do sistema ortográfico.O acordista sabe que o Acordo Ortográfico não trouxe acordo ortográfico, mas finge, ainda, ignorar que, para além da ortografia, não existem outras diferenças insanáveis, que só poderiam desaparecer se, para além de um acordo ortográfico, se realizassem, ainda, um acordo sintáctico, um acordo fonético e um acordo semântico. Nada disso impede o acordista de afirmar, por exemplo, que «qualquer livro editado em português possa ser impresso em qualquer país lusófono».

O acordista insiste, ainda, em classificar como perniciosa «a circunstância de a língua portuguesa ser a única  do mundo ocidental falada  por mais de cem  milhões de pessoas com duas ortografias ocidentais», o que, mesmo que não fosse mentira, não chegaria para provar coisa nenhuma, pois não passa  do típico argumento provinciano que se limita a considerar negativo o que for uma característica única.

É, ainda, vulgar, ouvir  o acordista criticar os críticos do Acordo Ortográfico por se julgarem «donos da língua».  Tal crítica faria sentido se esses mesmos críticos defendessem a imposição da ortografia europeia a todos os outros países  lusófonos. A língua pertence, evidentemente, a quem a usa, o que quer dizer  que o português pertence a todos os países  lusófonos e é, portanto, enriquecedor que esse facto provoque todo o género de aproximações e admita as inevitáveis diferenças, que podem ser fonéticas, semânticas ou ortográficas.

É nesta altura que o acordista deixa escapar a sua veia empreendedora, defendendo que o Acordo Ortográfico será uma oportunidade de negócio, com amanhãs comercialmente risonhos. Diante dessa certeza, o acordista desvaloriza, aliás, o contributo dos linguistas, seres  estranhos, ratos de biblioteca que se alimentam de etimologias bafientas e querem impedir a evolução da língua.

Para o acordista, mesmo sendo um  leigo ou exactamente por ser um leigo, o linguista é uma espécie que vai contra um século democrático em que a língua  é do povo. Não será estranho, amanhã, encontrar o acordista a defender, noutros campos do conhecimento, a autoridade dos especialistas.

Na língua, o especialista deve ser ignorado, é uma antiguidade sem sentido. Aliás, o acordista, tal como não leu o Acordo Ortográfico, também não se dá ao trabalho de ler os especialistas.

A recusa dessa leitura, no entanto, não impede o acordista de sustentar a sua opinião, que considera esmagadora, com argumentos tão vagos como  «já havia palavras homógrafas» (o que não deveria ser razão para  aumentar o seu  número), «há palavras que se pronunciam com a vogal fechada, apesar de terem consoantes mudas» (o que, sendo inegável, constitui excepção) ou «a grafia não afecta a oralidade» (como se não existissem relações complexas entre a leitura, a oralidade e a escrita).

Não é fácil ser-se crítico do Acordo Ortográfico, num país em que tudo  se discute  pela rama e tudo  se decide com leviandade.  Ser acordista é mais fácil: basta não conhecer o Acordo Ortográfico e não estar  na disposição de ler o que se escreve sobre ele.

Fonte

Artigo publicado no jornal Público de 18 de agosto de 2012. Manteve-se a ortografia seguida no jornal.

Sobre o autor

António Fernando Nabais é professor de Português e de Latim.