Quem rasgou os meus lençóis de linho?, de Dora Gago
Texto de Lídia Jorge para apresentação do romance
Dora Gago tem escrito sobre a deambulação o que faz com que os seus livros se inscrevam por direito próprio no vasto tema da diáspora portuguesa. Do seu deambular cosmopolita, rente à experiência universitária que a conduz voluntária e involuntariamente para territórios distantes, têm resultado crónicas esplêndidas nas quais a distância e a estranheza da vida nómada sob outros céus, ocupam lugar central na sua obra. A mais recente recolha, Palavras Nómadas é até agora o seu ponto mais alto no género. Mas neste momento Dora Gago empreende um outro tipo de construção, inscrevendo-se definitivamente como uma ficcionista sólida.
Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho? prova que a autora entrelaça com destreza incomum a narrativa sobre vidas dispersas, sem se cingir ao tradicional mal de vivre. Pelo contrário, este romance, em boa hora publicado pela The Poets and Dragons Society, narra a vida de três mulheres em luta pela sobrevivência, criando uma urdidura dramática, tão delicada quanto impressiva, que nada tem a ver com o lamento melodramático que pinta de coloridos róseos, hoje em dia, a maioria das narrativas escritas por mulheres. Pelo contrário, as personagens Ana Cláudia, Kate e Jenny procuram uma reparação e, em vez da alegria e do conforto que almejam, encontram em Macau uma cidade hostil, uma epidemia arrasadora, uma administração corrupta e laços humanos desfeitos.
Meteorologicamente falando, essa coincidência acontece ainda sob o rugido do tufão que pode atingir o nível dez. Trata-se de um romance sobre um estado de excepção do ponto de vista global. Experiências da comunidade rente ao limite. E, no entanto, como empreendimento literário, a imersão na vida pessoal, memória, pensamento e sonho, transformam a experiência narrada numa pequena obra-prima sobre o tema universal da perda íntima. Este livro não tem tambores a anunciá-lo. Mas deveria ter um que avisasse os leitores de que há silêncios que anunciam páginas inesquecíveis.
Texto incluído em 15/05/2026 no Jornal do Algarve e aqui republicado com a devida vénia. O título da obra apresentada é colhido de um poema de Clepsidra, de Camilo Pessanha (1867-1926)
