Virada, turbinar, engajamento, turno, «alienação eleitoral», «fala capacitista» e as eleições no Brasil
A comunicação social brasileira fez eco da vitória de Lula da Silva, que exercerá o seu quarto mandato à frente dos destinos do Brasil, de forma muito expressiva, usando termos pouco comuns, senão mesmo estranhos, para um falante de português europeu (doravante, PE). Em vários títulos da comunicação social, lemos formulações como «Virada inédita dá 4.º mandato a Lula» (Estadão), «Lula vira e será presidente pela 4.ª vez» (Folha de São Paulo). Nestes usos, o nome virada e o verbo virar descrevem uma «alteração radical no percurso ou na condição», um significado a que não se associa o verbo virar no quadro do PE, que em contextos similares recorreria, respetivamente, ao nome reviravolta e a uma forma perifrástica como «dar a volta». O jornal O Globo, por sua vez, titula: «uma explosão de engajamento turbinou Lula». Em PE, encontramos um equivalente quase direto para engajamento no nome envolvimento. Porém, para turbinar, a transferência não é tão óbvia por falta de um termo com o mesmo valor e expressividade. Poderíamos recorrer ao eloquente potenciar ou ao coloquial bombar, sem que nenhum pareça ter todas as cores de turbinar, que tanto descreve a forma como se potencia as qualidades de alguém como se incrementa de forma poderosa algo.
A votação que determinou qual o nome que estará à frente da governação do Brasil ocorreu no chamado «segundo turno» (em PE, «segunda volta») e resultou de uma intensa campanha feita sobretudo na rua, criando um ambiente eleitoral que resultou numa redução substancial da chamada «alienação eleitoral», cujo percentual (em PE, percentagem) ficou em 19,9%, confirmando uma queda histórica do número daqueles que, de alguma forma, não expressam a sua intenção de voto. A expressão «alienação eleitoral» não tem uso consagrado no comentário político em Portugal, ao contrário do que se verifica no Brasil, onde é usada para referir o conjunto de votos brancos, nulos e da própria abstenção. Em Portugal, o fenómeno é frequentemente considerado de forma compartimentada, prestando-se maior atenção aos números da abstenção.
O decurso da campanha preparatória do segundo turno ficou também marcado negativamente pela referência de Flávio Bolsonaro aos nove dedos de Lula da Silva, atitude que foi descrita como uma «fala capacitista», expressão equivalente a «comentário discriminatório» em PE.
Duas variedades da mesma língua e tantas formas de dizer as mesmas realidades. A disponibilidade para conhecer outras palavras e expressões a que, por vezes, subjazem outras formas de conceber factos do mundo será sempre uma turbinada que tem o poder de promover engajamentos comuns a dois povos unidos por uma língua cheia de cor e promessas.
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Imagem: produzida com auxílio de IA
