Tirzepatida, Mounjaro e neologia lexical
Algumas das mais recentes investigações no mundo das farmacêuticas estão a mudar a forma como a sociedade encara a obesidade. Falamos do princípio ativo denominado tirzepatida, um fármaco que atua como coagonista (ou seja, uma única molécula capaz de se ligar e ativar dois recetores celulares distintos) das hormonas intestinais GLP-1 e GIP, libertadas após a alimentação para regular o açúcar no sangue e controlar o apetite. Pelas suas propriedades, tem sido usado como medicamento no tratamento da diabetes tipo 2 e no controlo ou perda de peso. Foi esta última área de intervenção que popularizou o princípio ativo e o trouxe para o conhecimento comum, o que está a refletir-se no âmbito lexical.
Antes de mais, diga-se que a palavra tirzepatida é a tradução direta do inglês tirzepatide, palavra composta por dois elementos, que, segundo os registos identificados, foi criada em respeito pelas regras da Organização Mundial de Saúde (ver aqui). Assim, o sufixo -tida indica que se trata de um peptídeo ou análogo sintético de um peptídeo, como é o caso dos agonistas dos recetores do GLP-1 e do GIP. Já o elemento inicial (tirze-) terá sido criado arbitrariamente pelos criadores/investigadores. A influência do novo termo na criação de neologismos permite registar, desde já, usos truncados da palavra por meio do termo tirz e o uso da abreviatura TZP, adotada na comunidade médica e em comunidades de pacientes. Registamos, igualmente, o adjetivo neológico tirzepatidado(a), usado, particularmente nas redes sociais, para descrever alguém que acusa os efeitos do medicamento.
Mais conhecido do que o princípio ativo é o seu nome comercial: Mounjaro. Esta designação, importada diretamente do inglês, tem colocado alguns problemas na forma de pronunciar a palavra adaptada ao português dada a presença no seu interior da sequência inusitada -oun-, situação que poderá justificar a tendência para a gradual generalização da pronúncia da palavra como "monjaro". Em termos morfológicos, há quem aponte que a designação comercial em apreço se terá formado por um processo de amálgama. A ser rigorosa esta informação, a palavra será o resultado da junção da truncação moun- (do inglês mount) ao segmento -jaro, truncação, por seu turno, de Kilimanjaro (em português, Quilimanjaro). Esta palavra teria então como objetivo associar o nome do medicamento à ideia de superação. Também o nome Mounjaro está a propiciar dinamismo lexical à língua. Neste campo, podemos assinalar a expressão «cara de Mounjaro», expressão que descreve o rosto que dá sinais de rápida perda de peso, em consequência da ação do medicamento. Encontramos também registos de uso da expressão «efeito corta-fome», para descrever a ação do medicamento no organismo humano, e do neologismo "mounjarado", que alude ao efeito do medicamento.
O certo é que, se um medicamento vende três mil caixas num só dia em Portugal, as suas consequências não se verão apenas na saúde ou no aspeto físico das pessoas. O léxico vai igualmente reagir à novidade, pelo que se espera que os processos de criação neológica se mantenham produtivos nesta área.
