O neologismo narcolancha e a produtividade do radical narc(o)-
As tentativas cada vez mais ousadas dos traficantes com o objetivo de introduzir drogas nos diferentes países europeus criam uma situação propícia à produção de neologismos, correspondentes a novas palavras que descrevem as mais recentes práticas ou meios para as concretizar. Entre os neologismos associados a este contexto específico, destacamos o nome narcolancha, que tem vindo a lume em diversos textos da comunicação social para designar as embarcações extremamente rápidas colocadas ao serviço do transporte de droga. Estamos perante uma estratégia de introdução de droga por via marítima que, em Portugal, aumentou de forma visível a partir dos anos 2019/2020, num momento em que Espanha alterou a sua legislação contra o tráfico, o que levou a uma deslocalização das atividades criminosas para Portugal. Nos últimos seis anos a Polícia Judiciária apreendeu mais de 200 narcolanchas, o que, ainda assim, constitui apenas uma pequena parte das embarcações que tentam introduzir drogas em território português.
De um ponto de vista morfológico, o nome narcolancha é formado pela junção do radical narc(o)- à palavra tráfico. O radical em questão vem do elemento grego nárkē, ēs, que significava «torpor, entorpecimento» e que originou, ainda no grego, palavras como narcose (nárkōsis), com o significado de «estado de torpor e de inconsciência induzido por um medicamento hipnótico» e narcótico (narkōtikós), equivalente a droga e que designa «qualquer tipo de substância amortecedora dos sentidos» (Dicionário Houaiss). O radical narc(o)- é muito produtivo estando presente em palavras como narcoanestesia, narcolepsia, narcoterapia ou narcotráfico/narcotraficante, estas últimas pertencentes ao mesmo campo lexical de narcolancha.
