A IA já influencia a linguagem humana. E agora? As palavras e o estilo que denunciam a mudança em curso
Vários estudos académicos têm demonstrado que a IA (Inteligência Artificial) está a influenciar a forma como falamos e escrevemos. Numa fase anterior à que aparentemente já estamos a viver, a interferência da IA identificava-se sobretudo ao nível da produção de textos, que, em variadíssimos contextos, eram apresentados como se fossem de autoria humana, tendo sido, todavia, produzidos por um chatbot, na íntegra ou em parte.
Porém, a atual questão vem colocar em cima da mesa um outro nível de interferência da IA visto que há evidências de que o estilo linguístico que a caracteriza está a deixar marcas na forma como nós, humanos, o fazemos. Esta modelagem fica patente, por exemplo, ao nível vocabular. Um estudo conduzido pela Florida State University assinala que palavras como multifacetado, meticuloso, estratégico e orgulhoso , muito frequentes nos textos produzidos pelo ChatGPT, estão a ser incorporadas nos discursos humanos orais e escritos com uma frequência muito superior à que se verificava antes do contacto com as ferramentas de IA. No mesmo sentido, uma investigação promovida pelo Instituto Max Plack chega a conclusões idênticas. Após terem analisado, em 2023, milhares de horas de vídeos publicados no Youtube, os investigadores identificaram o aumento do uso de vocábulos como compreender, reforçar, prontamente e meticuloso. Corroboram estes dados, as abordagens empíricas que assinalam fenómenos de interferência associados, por exemplo, à pontuação. Muitas pessoas que lidam diariamente com a escrita apontam alterações, por exemplo, no campo da pontuação. Entre elas, destaca-se o uso do travessão, sinal agora muito frequente, usado em situações em que habitualmente se recorreria à vírgula. O travessão é um sinal que estava a ser pouco usado antes da chegada das ferramentas de IA, mas que é frequente na escrita dos chatbots. Identifica-se igualmente o uso crescente de conectores como «além disso», «por outro lado» ou «em suma». Na língua inglesa, outros investigações destacam o uso crescente, em trabalhos académicos, da palavra delve (que significa «investigar; aprofundar»). Em 2023 e 2024, o recurso a este termo terá aumentado cerca de dez vezes, o que comprova o facto de os cientistas terem começado a usar a IA para escrever ou auxiliar na escrita dos seus textos.
De uma forma mais global, a difusão dos modelos de linguagem e a sua presença em muitas atividades humanas parece também estar a conduzir à utilização de um vocabulário mais neutro e à adoção de um estilo genérico, polido, sem emoção, sem marcas pessoais e sem recurso a gírias.
Todos estes sinais abrem um campo de reflexão muito importante no âmbito da forma como a IA pode influenciar a forma como pensamos e falamos e, logo, como concebemos o mundo ou como intervimos nele. É certo que a IA já não é apenas um assistente de escrita e está a interferir na forma como usamos a linguagem e poderá influenciar o próprio conceito de humano e a sua cultura. Não esqueçamos que o desenvolvimento da civilização, tal como a conhecemos hoje, está diretamente associado ao desenvolvimento da linguagem, uma capacidade que diferenciou o humano de todas as outras espécies. Por esta razão, no atual contexto, impõem-se as questões: que humanos queremos ser? E que limites queremos impor à IA?
