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Vozes de comando
Vozes de comando

Sendo a linguagem pintura do pensamento,e, como tal, objecto de arte e de gosto, não podia deixar de participar do espírito, do génio e do pensar do povo que a fala; assim como este mesmo, em todas as referidas cousas, depende inquestionavelmente da natureza da região que habita, do conspecto do solo e das influências de um astro mais ou menos benigno.

O povo no génio do qual brilha a alegria, a vivacidade, e cujas paixões inquietas lhe põem continuadamente o ânimo em agitação, não podendo sofrer demora nas ideias, também não a poderá consentir na maneira de se explicar: cumprindo-lhe não só falar, com rapidez, senão ainda diminuir e encurtar as frases e as palavras, para com mais facilidade vir a cabo de se fazer entender. Pelo contrário, aquele que tiver um temperamento fleugmático, que for melancólico, triste, pensador, o estado do ânimo promovendo que nele a sucessão das ideias seja lenta, lhe fará expressar-se mais de espaço, compassando as sílabas e alongando as palavras. – Estes princípios sintéticos, a que não damos maior desenvolvimento, porque nos poderia isso levar mui longe, acham-se comprovados pela análise. – Sirvam de prova a língua francesa e a portuguesa. – Na primeira o espírito de vivacidade do povo que a fala contribuiu para lhe encurtar a maior parte dos vocábulos, que, sendo igualmente tomados do latim, perderam, todavia, as formas sonoras que tinham em sua origem (1) dando-se mais a circunstância que atribuímos ao mesmo espírito de vivacidade daquele povo, e é que todos os acentos predominantes de seus vocábulos não recuam da penúltima sílaba, donde procede não ter palavra alguma esdrúxula.

Na língua portuguesa, porém, nenhuns destes defeitos se notam. – O génio mais tranquilo, mais grave, e as ideias menos volúveis e fugaces do povo da Lusitânia, decerto mui conformes com as dos Romanos, lhe fizeram, tomando a língua destes, explicar-se em frases e períodos estendendo os vocábulos e recuando os acentos predominantes; o que lhe permite poder variar o discurso e combinar os sons, promovendo e dispondo a harmonia, e consequentemente a imitação.

Tem, pois, a língua portuguesa três espécies de palavras, que dos acentos finais de que constam se chamam agudas, esdrúxulas ou dactílicas, e graves; e de cuja óptima escolha sobremaneira depende o primor da elocução, e o perfeito imitativo do discurso.

O génio imitativo da nossa língua requer também que as vozes imperativas, com que se ordena uma acção pronta e rápida, devam ter uma terminação aguda e forte, indicativa da nossa indicativa da prontidão e vigor que se exige. – Tal é o que se observa nas vozes de comando militar, em que as de execução foram, pela maior parte, escolhidas com sílaba final aguda e forte; v. gr. rodar! volver! carregar! apontar!

Observando também que, a bordo de nossos barcos, movidos por vapor, as vozes para seguir viagem, parar, e recuar, terminam todas em sílaba aguda; tais são: andar! parar! a ré!

Bem se deixa ver que, se, em lugar das referidas vozes, empregássemos outras que terminassem em sílaba grave, como: rodem, volvam, carreguem, apontem, e – andem, parem, retrocedam, em nenhuma se daria a força e a intimativa que se nota nas primeiras.

A propriedade que a língua tem de poder empregar o infinito dos verbos pelo imperativo dos mesmos, é herança que lhe adveio do latim; – mas cumpre advertir que o efeito que tal emprego produz em português é superior ao que havia de produzir na língua dos Romanos, onde os infinitos dos verbos não são dotados da força dos nossos, contraídos em finais agudos e vibrantes.

(1) Assim se abreviou e fez: de "turris" tour, de "clavis" clef, de "aurum" or, de "ferrum" fer, de "collum" col, de "brachium" bras, de "pellis" peau, de "risus" ris, de "fortis" fort, de "flagellum" fléau, de "nomen" nom, de "sensus" sens, etc.

Fonte

Excerto de O Génio da Língua Portuguesa, in Paladinos da Linguagem, 3.º vol., Aillaud e Bertrand, Lisboa, 1921.

Sobre o autor

Francisco Evaristo Leoni (1804-1874). Militar, foi também autor de obras nas áreas da gramática e da filologia, bem como poeta. Autor, entre outras obras, de Gênio da Língua Portugueza ou Causas Racionaes e Philologicas (1858) e Camões e Os Lusiadas: ensaio historico-critico-litterario (1872).