Ter nascido / tenho existido
Saudações! Estou elaborando uma pesquisa pessoal e estou tentando traduzir um texto do grego bíblico para o português. Nesse ínterim, eu me deparei com uma frase que me tem dado muito em que pensar. Gostaria que os senhores me informassem se a sentença abaixo é ingramatical:
"Antes de Abraão ter nascido, eu tenho existido."
O pretérito perfeito composto expressa ações ou estados que tiveram início no passado e se estendem até o presente; expressa a idéia de continuidade. A minha questão é: Pode o pretérito perfeito composto ser usado para incluir um tempo *antes* de um ponto particular *no passado* (como no exemplo acima)? Considerem um outro exemplo:
Antes de o Concorde ter caído, eu tenho viajado.
Ou, invertendo:
Eu tenho viajado antes de o Concorde ter caído.
Apesar de serem inteligíveis, ao ler estas sentenças eu fico com a impressão de que há algo errado, esquisito, com elas; parece haver algo de ingramatical na sua composição. Ocorre a mesma sensação quando eu leio: "Antes de Abraão ter nascido, eu tenho existido." Ao inverter a sentença, a sensação de que algo está errado é ainda maior: "Eu tenho existido antes de Abraão ter nascido." O que o texto grego quer dizer é que a existência do sujeito, aqui, no caso, Jesus, se estendia desde antes do nascimento de Abraão até aquele momento em que proferia estas palavras. Como já foi observado acima, o pretérito perfeito composto pode expressar uma ação/estado que começou no passado e se prolonga até o presente. Mas, a minha dúvida é se o seu uso na sentença acima, incluindo um tempo *antes* de um ponto *no passado*, é ingramatical.
A minha impressão é que esta sentença está soando esquisita e desajeitada por ser ingramatical. Como solução, eu pensei em acrescentar uma pequena palavra que resolveria o problema, de modo que a sentença rezaria:
"Desde antes de Abraão ter nascido, eu tenho existido."
Ou, invertendo:
"Eu tenho existido desde antes de Abraão ter nascido."
Esta última fraseologia me parece ser mais correta. Ela não soa estranha ou desajeitada aos ouvidos, é inteligível e é também gramatical. E comunica eficazmente o significado da linguagem fonte à linguagem receptora. Similarmente, os exemplos do Concorde também parecem ficar mais corretos com a inclusão de "desde".
Porém, eu não posso prosseguir com o meu projeto sem ter certeza disso. E, por isso, gostaria de pedir a ajuda de vocês, especialistas lingüísticos. Por favor, peço-lhes que respondam às minhas perguntas, esclareçam a minha dúvida e me corrijam onde eu estiver errado.
