Filomena Viegas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Filomena Viegas
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Filomena Viegas é licenciada em Filologia Românica e mestre em Linguística Portuguesa Descritiva.

 
Textos publicados pela autora

Vou procurar esclarecer um pouco as dúvidas, recorrendo, fundamentalmente, ao Dicionário Terminológico (DT), à Gramática da Língua Portuguesa, de Mateus, M. H. et al. (2003), e à Gramática descriptiva de la lengua española, vol. I, de Bosque, Ignacio (dir.), Demonte, Violeta (dir.)(2004). Estas gramáticas tratam a questão da quantificação de forma muito completa.

A classe dos quantificadores é composta por uma grande heterogeneidade de palavras e locuções semanticamente quantitativas. Esta propriedade do significado, comum a numerosas palavras de diferentes classes, pode levar a equívocos na interpretação do conceito de quantificação.

No DT, a quantificação nominal é o principal objecto de atenção. Constatamos que, no grupo nominal, o quantificador, tal como o determinante, precede geralmente o nome. Ambos têm em comum a propriedade de construírem os valores referenciais do nome com o qual se combinam, funcionando como operadores do grupo nominal: o determinante individualiza o nome, especificando a sua referência com informação não quantitativa; o quantificador restringe a referência do nome com informação de natureza quantitativa.

O determinante especifica o nome com informação sobre propriedades sintácticas e semânticas dos objectos ou entidades designados pelo nome. Em 1, o nome está especificado, sabemos por isso que a mesma água foi fervida d...

O emprego dos pares de termos positiva vs. negativa ou afirmativa vs. negativa para identificar os valores de polaridade de um enunciado é conforme à própria definição apresentada no subdomínio B6. Semântica frásica. «Aplicado à semântica da estrutura frásica, este termo envolve dois valores: afirmativo e negativo. Diz-se que um enunciado tem uma polaridade afirmativa quando expressa uma asserção positiva (ex. O João voltou). Um enunciado com uma polaridade negativa é aquele que expressa uma asserção negativa [ex. (1) O João não voltou. (2) Ninguém veio.]»

Do ponto de vista da transposição didáctica seria aconselhável fixarmo-nos no par afirmativa vs. negativa, uma vez que está de acordo com a definição da TLEBS e é mais congruente com o respectivo conteúdo de funcionamento da língua, no Programa de Língua Portuguesa do Ensino Básico.

A propósito do conceito de polaridade, remeto para as outras respostas já publicadas no Ciberdúvidas sobre este tópico, que estarão em parte, como refere, na origem da sua questão [ver mais abaixo].

Ao dispor,

GramáTICª.pt

Na TLEBS não há referência explícita a frase enfática ou a frase neutra, como formas de frase. No subdomínio B4-Sintaxe são apresentados os quatro tipos canónicos de frase: declarativa, interrogativa, imperativa e exclamativa. Aliás, também não ocorrem nos Programas de Língua Portuguesa (PLP) nem no Currículo Nacional do Ensino Básico (CNEB). Contudo, não são excluídas as formas enfática e neutra, que podem encontrar justificação e uma mais rigorosa explicação no plano da pragmática. Com efeito, na definição do termo «força ilocutória», no subdomínio B7 – Pragmática e linguística textual, uma explicação para os valores enfático vs. neutro pode ser encontrada na observação dos seguintes marcadores da força ilocutória de um enunciado: a ordem das palavras, o contorno entonacional, a pontuação, o modo verbal, a presença vs. ausência de verbos performativos («prometer» «congratular-se», «dar parabéns», «cumprimentar», «avisar»…). É ainda de acrescentar a presença vs. ausência de determinadas unidades lexicais de valor enfático («já», «cá», «lá», «é que»…). Uma das maneiras de tornar mais funcional a consulta da TLEBS é estabelecer como método uma pesquisa articulada entre subdomínios. No caso de que nos ocupamos, tipo e forma de frase, ao articularmos termos e conceitos dos subdomínios da Sintaxe, da Semântica frásica (modalidade) e da Pragmática e linguística textual podemos chegar a um trabalho com os alunos mais rigoroso e completo sobre o Funcionamento da Língua (PLP), ou seja, sobre a competência "Conhecimento explícito da língua" (CNEB).

Bom trabalho.

GramáTICª.pt

De acordo com a TLEBS, o determinante é definido como uma palavra pertencente a uma classe fechada, que especifica um nome, precedendo-o, e que contribui para a construção do seu valor referencial, com informações sobre propriedades sintácticas e semânticas dos objectos ou entidades designados. Integram a classe dos determinantes as subclasses dos artigos, dos demonstrativos, dos possessivos.

Quando o determinante não tem realização lexical, diz-se que é nulo. Isso acontece, por exemplo, antes de certos nomes próprios que designam continentes, países, cidades - «Está em África/Portugal/Lisboa», mas «Está na Europa/China/Guarda». Acontece igualmente com certos grupos nominais cujo núcleo é um nome comum não contável no singular ou um nome contável no plural. Em (1) e (2), temos exemplos de grupos nominais com determinantes nulos. Em (3), a realização do determinante impõe uma leitura qualitativa do nome especificado e não uma leitura quantitativa. Em (4), a realização dos determinantes acentua a leitura restritiva marcada pela presença dos adjectivos.

(1) Vamos comprar [-] farinha e [-] açúcar para fazer o bolo.
(2) Quero [-] flores bonitas e [-] ovos frescos.
(3) Vamos comprar essa farinha para fazer o bolo.
(4) Quero as flores bonitas e os ovos frescos.

A noção de determinante nulo não tem relação com a de sujeito nulo. Na primeira, estamos a operar sobre classes de palavras, na segunda, sobre funções sintácticas na frase.

Espero ter contribuído para o esclarecimento da dúvida.

GramáTICª.pt

Primeiro que tudo, um pedido de desculpa pela morosidade desta resposta. Quanto à dúvida que levanta, na TLEBS não há, de facto, referência ao termo abreviação, nem a abreviatura. Julgamos que ele será incluído, aquando da revisão da lista de termos, integrando, provavelmente, o domínio da Representação gráfica da linguagem oral. Contudo, tem toda a razão em relação à importância de explorar este termo e respectivo conceito no contexto da neologia. Nas gramáticas que já integram alterações introduzidas pela TLEBS, a referência a abreviação ou redução de palavras como um processo neológico é apresentada com recurso a exemplos que justificam, em absoluto, um trabalho sobre este assunto com os alunos. Consultei também o Prontuário Actual da Língua Portuguesa (2005), que tem co-autoria de uma especialista da língua ligada à experimentação da TLEBS, a professora Olívia de Figueiredo. Lá podem ser encontrados exemplos que mostram como, na categoria abreviação, a abreviatura, enquanto truncação de palavras ou grupos de palavras, se pode constituir num produtivo processo neológico. Quem mais do que nós e os alunos ouve e usa o “setor” e a “setora” que vieram para ficar? Espero ter contribuído para o esclarecimento.

GramáTICª.pt