Ângela Costa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Ângela Costa
Ângela Costa
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Bolseira de Doutoramento da Universidade Nova de Lisboa; Investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa e do L2F - Laboratório de sistemas de Língua Falada do INESC-ID. Ver CV aqui.

 
Textos publicados pela autora

De facto, o verbo desreconhecer não se encontra atestado em nenhum dicionário português por nós consultado – Houaiss e Aurélio. No entanto, na esfera económica, o nome desreconhecimento, que pressupõe a formação potencial do verbo desreconhecer, é bastante recorrente, e são várias as suas ocorrências no Jornal Oficial da União Europeia. Aqui apresentamos algumas delas:

«Desreconhecimento é a remoção de um ativo financeiro ou de um passivo financeiro anteriormente reconhecido do balanço de uma entidade.»

«O ganho ou perda decorrente do desreconhecimento de um ativo intangível deve ser determinado como a diferença entre os proventos líquidos da alienação, se os houver, e a quantia escriturada do ativo.»

«O efeito na data de transição do desreconhecimento de activos intangíveis que não qualificam como activos à luz dos IFRS corresponde a uma redução dos capitais próprios no montante de 10 372 milhares de euros, líquido de impostos.»

Apesar de desreconhecimento poder ser considerado um anglicismo, por se tratar de tradução literal de derecognition, a verdade é que na terminologia económica o seu uso é recorrente.

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, o adjetivo feminino e masculino, que significa «que está ou se encontra em volta de uma coisa, de um lugar, que rodeia ou circunda» é regido pela preposição de. Atentemos nos seguintes exemplos encontrados neste dicionário:

«Toda a área circundante de casa era relvada», «A formação do SMOG de Los Angeles [...] é devida não só à configuração particular da topografia circundante da cidade, que a envolve como se formasse uma grande muralha natural, como à existência e persistência do grande anticiclone permanente do Pacífico Norte» (J. Pinto Peixoto, H.D.C.P. p. 63).

Porém, consultando uma das maiores bases de dados de português europeu, o CETEMPúblico, foram atestadas as seguintes ocorrências do adjetivo circundante tanto com a preposição de como com a preposição a:

«área circundante do Parque dos Príncipes»

«a área circundante do edifício»

«a zona circundante ao rio Águeda»

«zona circundante de Sapadores e da Graça»

«a construir na área circundante aos HUC»

«área circundante à Ribeira de Reveles»

«embelezamento da área circundante às Pirâmides de Gizé»

As construções com verbo-suporte (CVsup) são expressões predicativas complexas que consistem num formativo verbal, o verbo-suporte (Vsup) e num formativo nominal (Npred) que desempenha a função de núcleo predicativo da construção. Os dois constituintes de base do predicado analítico podem ou não estar ligados através de um termo relacional – a prepo­sição –, que, por sua vez, é seguida ou não de artigo. Pôr em causa ou pôr à prova são exemplos de CVsup preposicionadas, e pôr termo é um exemplo de CVsup não-preposicionada.

Independentemente do tipo de ligação que se estabelece entre os seus constituintes basilares, as CVsup partilham, como foi dito, um Vsup e um N em função predicativa. Embora fazendo parte da expressão predicativa, os Vsup não têm o estatuto de verbos plenos (Vplenos) – verbos com uma estrutura semântico-lexical que lhes permite abrir lugares vazios destinados a argumentos, podendo desempenhar sozinhos a função da predicação. Esse esvaziamanto semântico explica a perda, por parte dos Vsup, das relações paradigmáticas (de sinonímia e antonímia) que se estabelecem entre Vplenos em construções sintáticas livres:

Pus o livro na mesa/tirei o livro da mesa; Pus a máquina em funcionamento/*tirei a máquina de funcionamento.

Pus o vaso na rua/coloquei o vaso na rua; Pus mãos à obra/*coloquei mãos à obra.

Estes testes de sinonímia e antonímia são mais eficazes em expressões mais fixas, como esta última, mas não são tão elucidativos em expressões menos fixas, como pôr/colocar em ordem.

A fronteira entre CVsup e CVpleno nem sempre é fácil de traçar, existem zonas de transição, onde se integram determinados tipos de construções – sobretudo expressões não-preposicionadas –, cujo N permite a anaforização e/ou a inte...

Em Portugal, a forma de tratamento você nem sempre é considerada muito educada, e, ainda hoje, fora da intimidade, não é raro associá-la a alguém que não é muito culto e tem falta de educação. A propósito deste pronome de tratamento, Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1984, pág. 294), observam o seguinte (manteve-se a ortografia):

«[O valor] de tratamento igualitário ou de superior para inferior (em idade, em classe social, em hierarquia), e apenas este, [é] o que você possui no português europeu normal europeu, onde só excepcionalmente – e em certas camadas sociais altas – aparece como forma carinhosa de intimidade. No português de Portugal não é ainda possível, apesar de certo alargamento recente do seu emprego, usar você de inferior para superior, em idade, classe social ou hierarquia.»

Quase trinta anos depois de estas palavras terem sido publicadas, a perspetiva por elas descrita ainda se mantém em Portugal, embora no passado a atitude fosse, em certos meios, mais exacerbada, quando se encarava o emprego de você (e não o uso da 3.ª pessoa do singular com um interlocutor) como traço de falta de trato em situações de comunicação. Não é possível identificar com segurança a origem factual das expressões em apreço, mas parece plausível que você fosse usado com serviçais, entre os quais se incluiriam, por exemplo, moços de estrebaria, que tinham um trabalho rude. Note-se, aliás, que, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, estrebaria é  local onde se recolhem cavalos e guardam arreios; não obstante, designa igualmente «um alojamento impróprio, imundo». Quem se julgasse superi...

Segundo o Novo Dicionário de Expressões Idiomáticas, «tarde piaste» diz-se a alguém que chegou tarde ou interveio tarde num assunto. É dizer alguma coisa depois de passado o momento oportuno, dar uma explicação tardiamente, quando já não pode ter qualquer efeito sobre a situação.

Em relação à origem da expressão, está terá origem latina, sendo a sua tradução «sero venisti». Mediante a consulta da Web, surgiram duas explicações para a sua origem. Segundo uma delas, a expressão refere o milhafre, uma ave que não costuma apanhar as presas vivas, mas que por vezes apanha um pintainho ainda vivo e o devora. Mesmo que pie, já não terá salvação possível. A outra versão é a história de um galego, que estava a comer ovos crus, ao engolir um que não estava fresco, já na garganta piou um pinto e, assim, este observou: «Tarde piaste!» (Raimundo Magalhães Jr.)