Francisco Costa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Francisco Costa
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Francisco Costa é licenciado em Linguística Computacional pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 
Textos publicados pela autora

Como há muita coisa que se poderia dizer a este respeito, julgo que a consulente pretende indicações bibliográficas. Algumas das obras sugeridas talvez sejam difíceis de consultar no Brasil, mas de qualquer forma aqui ficam as referências. Um bom ponto de partida é a obra acima citada de Paul Teyssier. Pode também consultar as páginas do Instituto Camões dedicadas à história da língua portuguesa: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/hlp/index.html, onde encontrará de resto uma selecção bibliográfica mais alargada. Também no sítio desta instituição se encontra uma transcrição do texto português mais antigo entre aqueles cujas versões originais chegaram aos nossos dias: http://www.instituto-camoes.pt/bases/magnalingua/fiadores.htm. CASTRO, Ivo (1991) Curso de História da Língua Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta. SILVA, Rosa Virgínia Mattos e (1991) O Português Arcaico: Fonologia. São Paulo/Bahía: Contexto/Editora Universidade Federal da Bahía. SILVA, Rosa Virgínia Mattos e (1993) O Português Arcaico: Morfologia e Sintaxe. São Paulo: Contexto. TEYSSIER, Paul (1980) História da Língua Portuguesa. Tradução portuguesa de Celso Ferreira da Cunha (1982). Lisboa, Sá da Costa. VÄÄNÄNEN, Veikko (1963) Introducción al Latín Vulgar. Tradução espanhola de Manuel Carrión (1968). Madrid, Gredos. VASQUEZ CUESTA, Pilar e Maria Albertina MENDES DA LUZ (1971) Gramática da Língua Portuguesa. Tradução portuguesa de Ana Maria Brito e Gabriela Matos (1980). Lisboa, Edições 70. WILLIAMS, Edwin (1938) Do Latim ao Português (Fonologia e Morfologia Históricas da Língua Portuguesa). Tradução portuguesa de Antônio Houaiss (1961). Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.

Deve dizer «Nós fomos confrontada» se estiver a utilizar o plural majestático (também conhecido como plural de modéstia), pois, quando se usa o plural majestático, quaisquer adjectivos ou particípios referentes ao sujeito devem concordar com este de acordo com o seu género e número naturais e não segundo o número gramatical do sujeito.

Obviamente, isto só se aplica se estiver a ser utilizado o plural majestático. Quando o plural gramatical equivale a um plural semântico, a concordância processa-se de forma regular, até porque neste caso género e número gramaticais e género e número naturais coincidem.

O acordo ortográfico de 1945 indica que não se usa o apóstrofo «na forma sincopada "pra" (= "para")» nem «nas contracções dela com o artigo ou pronome "o, a, os, as": "prò, prà, pròs, pràs"». Este é o protocolo que neste momento rege a ortografia portuguesa – houve pequenas alterações nos anos setenta mas não interessam para o caso.

Este documento estabelece as seguintes condições para o uso do apóstrofo:

«a) Indicar a supressão de uma vogal no verso, por exigência da metrificação: "c'roa, esp'rança, of'recer, 'star, minh'alma, n'água," etc.;
b) Reproduzir certas pronúncias populares: "'tá, 'teve," etc.;
c) Indicar elisão da vogal no interior de palavras compostas cujos elementos são ligados pela preposição "de", quando essa elisão se faz invariavelmente na pronúncia brasileira e na portuguesa:
"copo-d'água" (...), "galinha-d'água, mãe-d'água, olho-d'água, pau-d'água (...), galinha-d'angola" (...), etc.;
d) Indicar a supressão da vogal de uma preposição ou contracção que antecede um título ou uma denominação, cujo primeiro elemento é o artigo definido: trecho "d'Os Lusíadas" (...), etc.;
e) Distinguir dois elementos de uma contracção ou aglutinação vocabular, se o segundo é adjectivo determinativo ou pronome, quando se lhe quer dar realce pelo uso da maiúscula inicial; "d'Ele, n'Ele, d'Aquele, n'Aquele, d'O, m'O, lh'O" (o segundo elemento com referência a Deus, a Jesus, etc.) (...);
f) Indicar a supressão da vogal final em "santo" e "santa" antes de nomes próprios do hagiológio: "Sant'Ana, Sant'Iago (...), etc.»

O documento acrescenta...

O que é por vezes criticado é a situação contrária: o uso de artigo antes de nomes próprios quando eles designam certas personalidades afastadas da pessoa que fala, mas bastante conhecidas ("o" Camões, "o" Jesus Cristo) – uma situação que é frequente no Português europeu. Justifica-se tal crítica por o artigo dar um tom de familiaridade que pode não ser apropriado.

A situação descrita (o não uso de artigo antes de antropónimos ou de nomes de cariz familiar, como «pai» ou «mãe») não é propriamente incorrecta. Ela é praticamente desconhecida do Português europeu, mas o Português do Brasil segue-a por vezes, assim como estádios mais antigos da nossa língua.

A propósito do emprego do artigo definido antes de nomes próprios, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, adianta o seguinte:

«Na linguagem popular e no trato familiar é muito frequente no Brasil e está praticamente generalizada na língua corrente de Portugal a anteposição do artigo definido a nomes de baptismo de pessoas, o que lhes dá, como dissemos, um tom de afectividade ou familiaridade. Comparem-se, por exemplo, estas duas frases:
Geraldo saiu agora.
O Geraldo saiu agora.

Na primeira (só possível, em Portugal, na linguagem escrita), a pessoa mencionada vem envolta de certa distinção, sentimo-la mais distante. Na segunda, apontamos a pessoa como conhecida dos presentes, como um elemento familiar, caseiro».

N.E. – Esta resposta destina-se também à consulente Luciana Meiking.

A informação presente no dicionário não tem de ser interpretada como sugerindo que os numerais são uma subclasse dos nomes. Na verdade, em muitos usos que fazemos dos numerais cardinais, empregamo-los como substantivos, não significando isto que nos outros casos também sejam nomes. Por exemplo, numa frase como «No jardim zoológico há nove pinguins» a palavra «nove» é utilizada como numeral, mas em frases como «Vou apanhar o [autocarro] trinta e um», «Nove e nove são dezoito» ou «2002 foi um ano horrível» estamos perante numerais substantivados ou até mesmo substantivos – na última frase temos inclusivamente «2002» como nome próprio.

Não se pode dizer que os numerais cardinais e ordinais à esquerda de um substantivo – como em «três (tristes) tigres» – sejam substantivos, uma vez que ocorrem numa posição adjectival (num sentido lato). Mas é, de facto, fácil ocorrerem em posição de substantivo.

Há, inclusive, palavras classificadas em gramáticas como numerais, nomeadamente como numerais fraccionários («metade, terço, quarto...»), colectivos («dezena, dúzia, centena...») e algumas classificadas como numerais multiplicativos («dobro») que apresentam a distribuição sintáctica dos nomes, ou seja, ocorrem nos contextos sintácticos próprios dos substantivos.

Por isso, não é de espantar que outros autores os classifiquem como nomes.