Francisco Costa - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Francisco Costa
Francisco Costa
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Francisco Costa é licenciado em Linguística Computacional pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 
Textos publicados pela autora

Pergunta:

Consultei diversas gramáticas, prontuários e dicionários de verbos, mas nenhum destes me conseguiu elucidar em relação aos verbos defectivos impessoais e unipessoais. Não há um consenso em relação, por exemplo, aos tempos em que são conjugados esses verbos e às pessoas. Por exemplo:
Chover, nevar, abrumar e anoitecer podem ou não ter imperativo?
E quais os tempos que se conjugam? Podem ter gerúndio e particípio passado? E o infinitivo, é pessoal ou impessoal?
E miar ou ladrar, zumbir, balir, cacarejar... (as vozes dos animais)? Conjugam-se todas as pessoas ou apenas a 3.ª do plural e do singular? Podem ter imperativo? E se podem, quais as pessoas que se conjugam?
Obrigada.

Resposta:

Há várias razões para se considerar que um verbo português não admite algumas formas. Por exemplo, há certos verbos (os defectivos) que na primeira pessoa do singular do presente do indicativo e em todas as formas do conjuntivo presente possuem/possuiriam formas que soam bastante estranhas aos falantes – é o caso de abolir ou colorir. Mesmo quanto às formas «estranhas» os gramáticos se dividem, alguns não incluindo neste grupo as formas arrizotónicas do presente do indicativo.
Outros gramáticos há que defendem que não há razão para considerar que estas formas são inexistentes e incluem-nas em dicionários de verbos conjugados, por exemplo.
Falir é outro caso de um verbo com formas que são foneticamente esquisitas, sendo que nem sempre um mesmo autor considera que as formas inexistentes para este verbo são exactamente as mesmas que as formas inexistentes dos verbos mencionados.
Estes casos podem ser explicados pelo fa(c)to de a terceira conjugação em português ser largamente vestigial, em muitas formas já idêntica à segunda, e a tornar-se cada vez menos frequente (por exemplo, os verbos novos que entram na língua já nunca integram esta conjugação).
O caso apresentado (o dos verbos impessoais e unipessoais) tem pontos em comum com o que refiro, mas também existem diferenças. Na verdade, a grande motivação para dizer que esses verbos só possuem as formas de terceira pessoa é que, em virtude do seu significado, não podem ter como sujeito uma entidade humana. Mas é óbvio que podem ser usados na primeira e na segunda pessoa, por exemplo em construções metafóricas ou personificações.
O que é importante realçar é que a intenção dos gramáticos ao falarem de verbos impessoais e de verbos unipessoais não é dizer que esta e aquela forma não devem ser usadas, mas sim constatar que são tão infrequentes ou usadas em contextos...

Pergunta:

Quais são os tipos de frases interrogativas em Português?

Resposta:

interrogativas globais (ou totais) e interrogativas parciais (ou de instanciação). Há interrogativas directas e interrogativas indirectas (subordinadas).

Entre as interrogativas totais podem-se distinguir as interrogativas «tag». Entre as interrogativas parciais podem-se distinguir as interrogativas múltiplas. No grupo das interrogativas parciais também se incluem as interrogativas «eco».

A diferença entre as interrogativas globais e as interrogativas parciais é que às primeiras corresponderá como resposta «sim» ou «não», enquanto as segundas contêm um elemento QU- (os advérbios «onde» e «como» também são QU-) – ex. de uma global: «Queres ir ao cinema?»; ex. de uma parcial: «Aonde queres ir?».

Uma frase como «Queres ir ao cinema, não queres?» é uma interrogativa «tag».

Uma interrogativa parcial múltipla é uma interrogativa com vários constituintes QU-: «Quem fez o quê?». Distingue-se este tipo de interrogativa porque, em Português e em várias outras línguas, só um QU- pode ser movido.

Em Português, como foi referido, só um constituinte interrogativo pode ser movido numa interrogativa. Contudo, não é obrigatório que um destes constituintes interrogados seja movido. Por exemplo, em vez de «Aonde queres ir?», pode-se dizer «Queres ir aonde?». Uma frase como esta última pode ser produzida num contexto pragmático semelhante àquele em que a sua correspondente com movimento também pode ser proferida. Além disto pode ainda ser produzida como resposta a uma frase do tipo «Quero ir ao cinema.», como forma de indicar que não se percebeu a última parte deste enunciado. Se tal for o cas...