Eva Arim - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Eva Arim
Eva Arim
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Licenciada em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora do ILTEC.

 
Textos publicados pela autora

A frase que apresenta possui uma construção a que alguns estudos linguísticos chamam dequeísta. Uma construção dequeísta é uma construção em foi indevidamente inserida uma preposição antes de uma oração completiva, no exemplo em questão a preposição de antes da oração completiva «que no final de contas não lhes restará nada».

O verbo alegar é transitivo directo, não regendo por isso qualquer preposição. A alternativa correcta seria assim: «Outros alegam, diante dos altos impostos, que, se pagarem tudo correctamente, no final de contas, não lhes restará nada.»

Os verbos intransitivos são verbos que seleccionam tipicamente apenas um argumento externo — o sujeito. No entanto, por vezes, um complemento semanticamente relacionado com o verbo pode ocorrer como objecto directo de um verbo intransitivo, passando este a funcionar como transitivo.

Este complemento pode ser um cognato do verbo (tem o mesmo radical: «Ontem choveu uma chuva miudinha»), ser seu hipónimo (apresenta um sentido mais específico do que o transmitido pelo verbo: «Eles dançam muito bem valsa») ou pertencer simplesmente ao mesmo campo semântico do verbo: «Dormiu um soninho descansado»; «Ela chorou lágrimas de crocodilo.»

No texto que apresenta, a construção «solicito que V. Ex.ª se digne a providenciar» não exibe qualquer problema. O verbo solicitar selecciona um objecto directo («solicitar algo»), que pode ser realizado por meio de um sintagma nominal ou de uma oração. Na construção apresentada, esse objecto é a oração «que V. Ex.ª se digne a providenciar».

No que respeita ao constituinte correspondente «à pessoa a quem se solicita algo», que pode ou não ser realizado, este pode ocorrer como objecto indirecto do verbo solicitar («solicito a V. Ex.ª que...») ou como sujeito da oração subordinada, tal como aparece no exemplo em análise.

Quanto ao verbo dignar-se, este rege a preposição a (em português europeu), preposição que não é, no entanto, obrigatória.
A construção sem preposição será também aceitável: «solicito que V. Ex.ª se digne providenciar...»

Os problemas que identifico no texto apresentado são a supressão do objecto directo do verbo providenciar e a contracção indevida da preposição de com o artigo o antes da oração «o formador da acção de formação em causa ser contactado com a devida antecedência por esses Serviços».

A questão que o consulente coloca tem que ver com a regência do verbo pagar. Quando o seu complemento é uma coisa, este verbo é transitivo directo («pagar algo»); quando o seu complemento é uma pessoa, o verbo pagar é transitivo indirecto, regendo a preposição a («pagar a alguém»).

No exemplo apresentado pelo consulente, sendo o complemento do verbo pagar [+ humano], este deve ser antecido da preposição a, que, ao se juntar ao artigo a, dará então origem à contracção à. A construção correcta seria, tal como o consulente sugere, «… pagar à Mónica».

Atente-se, no entanto, ao que diz Luft no seu Dicionário Prático de Regência Verbal:

«Puristas logicistas só aceitam objeto indireto de pessoa com este verbo, condenando a sintaxe evoluída pagar alguém, pagá-lo. Esta, no entanto, é de uso freqüente e, até literariamente, bem documentada. […] Ouvir-se-á no entanto de qualquer brasileiro: Já paguei o professor. […] Explicação: na estrutura [pagar – algo – a alguém], vagando a segunda posição, pode ela ser preenchida pelo ocupante da terceira, que assim perde a preposição; ou seja, na vaga do objeto direto pode o indireto passar a direto. […] Nova estrutura para a semântica ‘(re)embolsar, (re)compensar, indenizar’. Sintaxe legítima, portanto. Quando muito, pode-se dizer que na língua escrita formal, a sintaxe pagar a alguém, pagar-lhe é preferível a pagar alguém, pagá-lo.»1

O verbo introduzir rege a preposição em. No entanto, os nomes formados a partir de verbos não têm necessariamente a mesma regência que esses verbos. Dizemos «A China invadiu o Tibete», mas não dizemos «A invasão o Tibete pela China», uma vez que o verbo invadir é transitivo directo, mas o nome invasão rege a preposição de.

Além disso, os nomes, tal como os verbos e os adjectivos, não têm sempre uma regência única. As palavras com que o termo regente se combina dependem do sentido que aquele toma.

O nome introdução não tem apenas um sentido, mas vários. Quando significa «acção de introduzir», rege a preposição em. Contudo, significando «princípios essenciais de uma ciência ou matéria», rege a preposição a.

Assim, apenas a construção «Introdução à História» se poderá considerar correcta.