A literatura regional e a linguagem - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A literatura regional e a linguagem

Meu querido amigo e príncipe das letras, ofereço-lhe este livro de imagens, de seres e de coisas próprias dos lugares onde a lenda diz ainda: «uma vez um homem traçou do bordão e partiu a correr as sete partidas do mundo; andou, andou, até que foi dar a comarca cujos naturais comiam calhaus e ladravam como cães». Circunscrito, é intuitivo, a indivíduos rudes, teve em mira este trabalho pintar dessas aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro, e, a norte, lhes parece gamela emborcada o Monte-Marão. O vale, que as explora, trata-as despicientemente por «Terras do Demo». Sem dúvida, nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização.

A obra de análise que a crítica amável houve por bem de me assinalar em A Via Sinuosa, raro se lhe há-de deparar aqui. Tampouco malbaratei louçanias, esmaltes ou vidrilhos da linguagem, soando falso, a propósito de criaturas em que assenta até mal a gravata que os tendeiros para lá levaram.

Estilizei, como não, pela necessidade de fugir à melopeia e à pouca extensão do dizer popular: mas o meu léxicon é o deles; as minhas vozes, ouvi-lhas; sou mais cronista que carpinteiro de romance; quereria até que este livro se embrulhasse num pedaço da serguilha em que eles se embrulham.

Se, ao folhear, estas páginas rescenderem ao tojo e ao burel azeitado quando torna dos pisões, terei satisfeito o meu propósito: descer a arte sobre a bronca, fragrante e sincera Serra, e, em certa medida, activar o desquite entre a nossa língua e essa literatura desnacionalizada, franchinote, de que se atulha a praça. Uma renascença literária tem de volver às origens, aos clássicos e ao povo; e uma pedra — é uma questão apenas de boa vontade — trago-a eu aqui.

Dizem que a literatura regionalista é uma especulação toda de generosidade, sem galardão do público. De acordo; não se lê com apetite, não tem o nervo, o transporte intelectual, a mesma estética que o gosto moderno espera num drama de cidade. Todavia Fritz Reuter, alemão, Björnson, norueguês, o próprio Tolstoï, aí firmaram seus nomes. Em Espanha e França está mesmo de moda. Que é uma arte de contracção, suspendendo o espírito em seu voar ou entranhar-se na análise, é certo. Por aí ela peca.

A aldeia serrana, como aquela em que fui nado e baptizado e me criei são e escorreito, é assim mesmo: bulhenta, valerosa, suja, sensual, avara, honrada, com todos os sentimentos e instintos que constituíam o empedrado da comuna antiga. Ainda ali há Abraão, e os santos vêm à fala com os zagais nos silenciosos montes; ali roda o velho carro gótico nos, mais velhos, caminhos romanos; é pagã e crê, em sua religiosidade toda exterior, adorar o Deus de S. Tomás; conta pelo calendário gregoriano estes terríveis dias de peste, fome e guerra, e está imersa nos nebulosos tempos do rei Vamba.

Em tais condições de primitividade, a pena descreve; mas tornar-se-ia ridícula, analisando. Para dar a verdade local, tem de abstrair da linguagem erudita que forjaram árcades, pregadores e gongóricos vates de má morte; todas as aquisições da ciência no tocante às enfermidades da alma e do corpo e são de socorro tam prestimoso ao escritor, ficam fora, se a técnica é severa. Em suma, é escrever com o espírito daquele soldado que deixou o Roteiro marítimo para a Índia; e — aí está a dificuldade — escrever com pena de aço e não com pena de pato. Do pincel enciclopédico que poderá usar o autor de hoje resta uma brocha de trolha. Parece-me que esta literatura, porém, é uma necessidade: é picar na nascente, renovar o veio da língua, viciado por outras línguas, corrompido pela gíria das cidades; rebater no estilo ainda muito arredondado do torno mecânico, latinizante, dos quinhentistas. A madre é na aldeia; ali está pura a língua. Por aqui se salva, se não por outros predicados, a arte regionalista.

 

Fonte

Da dedicatória a Carlos Malheiro Dias, das "Terras do Demo", 2.ª edição, Lisboa, 1919.

Sobre o autor

Aquilino Ribeiro (Sernancelhe, 1885 – Lisboa, 1963), escritor português, é considerado como um dos romancistas mais fecundos do século XX. Deixou uma vasta obra que abarca mais que um género literário, publicando com regularidade. Assim, a sua obra com contos A Filha do Jardineiro (1907) e Quando ao Gavião Cai a Pena (1935), romances e novelas Terras do Demo (1918) e Cinco Réis de Gente (1948) e obras infanto-juvenil Romance da Raposa (1924) e Arca de Noé I, II e III (1936).