«Personae non gratae» - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Personae non gratae»

Os canais de televisão portugueses RTP e SIC, na véspera de 1 de Maio, convergiram na péssima utilização do plural da expressão latina «persona non grata»: em vez de «personae non gratae», saiu-lhes um «personas non gratas» que não é latim nem português.
     Trata-de de irritante armadilha da linguagem dos diplomatas. A maior parte deles sabe tanto latim como a maior parte dos jornalistas: ou seja, nada. Mas admito que façam uma coisa que os jornalistas fazem cada vez menos: transmitem uns aos outros, em geral dos mais aos menos experientes, certas receitas que lhes permitem passar por «cultos».
     Nas redacções dos jornais, quem tiver mais de quarenta anos e não for chefe, já é velho em demasia e tem escancarada a porta da rua. Os políticos estrangeiros (por exemplo, o sr. Kohl) ficam perplexos por verem nas conferências de imprensa, em Portugal, só jornalistas de vinte e poucos anos - bons para correr os cem metros e melhores ainda para tropeçar na primeira «casca de banana».
     Gostaria de ajudar os incautos quanto a esta armadilha, mas é expressão inadaptável.
     Aportuguesou-se, e bem, o «curriculum», que nos obrigava a um plural que só lembrava a um latino: «curricula». Aportuguesou-se o «forum», cujo plural também nos punha «fora» de nós (para fórum, fóruns ou foro, foros). Mas, quanto à «persona non grata», a bibliografia que consultei não apresenta qualquer possibilidade de substituição.
     Esta «persona», por mais «grata» que seja, nada tem de agradecida. Sem o «non», é - isso sim - bem recebida no país onde se abre a embaixada; com o «non», não é lá nada bem-vinda, ou seja, tem bilhete de volta irreversível e com carácter de urgência.
     Assim nós, quando as expressões são «non gratae», lhes pudéssemos fazer o mesmo.

Sobre o autor

Bacharel em Jornalismo pela Escola Superior de Meios de Comunicação Social de Lisboa e ex-coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Colaborou em vários jornais, sobretudo com textos de análise política e social, nomeadamente no Expresso, Público, Notícias da Amadora e no extinto Comércio do Funchal, influente órgão da Imprensa até ao 25 de Abril.