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Biblos

Volume 11 da 3.ª série

Biblos
Autor(es) Vários autores
Edição Imprensa da Universidade de Coimbra , 2026
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Desde a Revolução dos Cravos que abril quase se confunde com liberdade. É o mês em que a memória coletiva floresce e somos levados a interrogarmo-nos sobre o que significa ser livre. No entanto, a liberdade não é apenas aquilo que se conquistou há mais de cinquenta anos num processo revolucionário, mas também o que se constrói todos os dias nas palavras ditas sem medo, no pensamento crítico e na possibilidade de escolher e discordar. Todos estes aspetos e muitos outros cabem na palavra liberdade. É precisamente a reflexão sobre a liberdade e as suas dimensões política, histórica, estética e linguística que dá origem ao volume 11 da 3.ª série da Biblos – Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Como assinalado na introdução, aqui reúnem-se artigos que “revelam não ser a Liberdade uma conquista estática, mas um processo em permanente construção, marcado por tensões roturas e reinvenções” (páginas 11-12).

Esta publicação surge ainda no contexto das comemorações dos cinquenta anos do 25 de Abril e propõe um diálogo interdisciplinar em torno de um dos conceitos mais debatidos e mais exigentes das Humanidades. A partir do verso de Sérgio Godinho, “A Liberdade vai passar por aqui”, o volume articula passado, presente e futuro, interrogando tanto os episódios fundadores da experiência democrática portuguesa como os novos desafios que se colocam às sociedades contemporâneas.

O presente volume organiza-se em três grandes núcleos temáticos: “Liberdade e História (Memória e Futuro)”, “Liberdade e Discurso(s)” e “Liberdade e Literatura(s)”. No primeiro, a liberdade é analisada à luz da democracia, da igualdade, da Revolução de Abril e dos seus conflitos, desde o pensamento clássico até aos debates da Assembleia Constituinte de 1975 ou às lutas sociais no mundo rural. O segundo núcleo centra‑se nos discursos e nas práticas comunicativas, abordando questões como a violência contra jornalistas, a liberdade de expressão, a justiça linguística, a música de intervenção ou a investigação científica em confronto com a proteção de dados. Já o terceiro núcleo explora a liberdade na criação literária, dando voz à poesia, ao romance e à escrita experimental, em Portugal e noutros espaços culturais, antes e depois de 1974.

Entre os artigos aqui publicados, destacamos “Formação de professores de Inglês e justiça linguística: Liberdade, identidades e transformação social”, da autoria de Mónica Lourenço, que analisa de que modo a formação de professores de inglês pode contribuir para a justiça linguística e a transformação social, promovendo o respeito pela liberdade linguística e pelas identidades plurais. A partir de um estudo de caso com futuros professores, a autora mostra que as práticas de ensino inclusivas conduzem ao desenvolvimento de uma identidade docente crítica e consciente do poder transformador da educação linguística.

Realçamos também o artigo “As Vozes da Liberdade”, assinado por Ana Paula Arnaut, que propõe uma reflexão sobre a relação entre liberdade de expressão e criação literária em Portugal, antes e depois do 25 de Abril de 1974. A autora destaca o papel da literatura como arma de resistência ideológica e sociocultural, evidenciando autores como Miguel Torga, José Cardoso PiresMaria Velho da Costa ou Lobo Antunes, cujas obras refletem tanto o entusiasmo revolucionário como o desencanto democrático.

Em síntese, a pluralidade de perspetivas, épocas e objetos de análise confirma a vocação transversal da Biblos e sublinha a atualidade da pergunta que atravessa todo o volume: como pensar e exercer a liberdade num mundo marcado por crises políticas, tecnológicas, culturais e éticas? Entre memória e futuro, entre resistência e reinvenção, esta edição da Biblos convida o leitor a refletir criticamente sobre a liberdade como um valor sempre inacabado, que exige luta, participação e responsabilidade.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa