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Controvérsias // O português do Brasil

O português do Brasil é mais português do que o português de Portugal?

"Erros" que são herança do português antigo

«Importante: este texto não é uma defesa normativa das formas populares; afinal, deve-se ensinar a norma-padrão nas escolas.»

Muito do que hoje se critica no português brasileiro é herança do próprio português antigo. O preconceito linguístico, muitas vezes, nasce do desconhecimento da história da língua. Por isso, todo professor de português precisa conhecer alguns fatos. Vamos a isto.

Atualmente, muitos portugueses consideram erradas certas maneiras de falar e escrever dos brasileiros. No entanto, um estudo histórico da língua revela algo que frequentemente passa despercebido e reitero aqui: muitos usos linguísticos hoje característicos do português brasileiro (falado e/ou escrito, informal e/ou formal) já existiam no português antigo e alguns sobrevivem em variedades regionais de Portugal.

É o que podemos constatar em A Língua do Brasil, do filólogo Gladstone Chaves de Melo, obra que demonstra a importância de estudar a história da língua antes de classificar determinados usos como erros ou brasileirismos. Importante: este texto não é uma defesa normativa das formas populares; afinal, deve-se ensinar a norma-padrão nas escolas. O propósito aqui é tão somente histórico-descritivo, com a intenção de mitigar a percepção de que certos usos cotidianos do português brasileiro são invenções nossas, quando na verdade não passam de formas arcaicas desde o português seiscentista.

Vejamos alguns exemplos (a maioria fora da norma-padrão) de usos generalizados no Brasil, heranças do português de outrora:

1. Pronome ele como objeto direto: «Vi ele na sala» (em vez de «Vi-o na sala»).

2. Pronome lhe como objeto direto: «Não lhe vi ontem» (em vez de «Não o vi ontem»).

3. Pronome átono no início da oração: «Nos disseram a verdade» (em vez de «Disseram-nos a verdade»).

4. Preposição em com verbos de movimento: «Vou na cidade» (em vez de «Vou à cidade»).

5. Gerúndio em construções progressivas: «Estamos estudando» (em vez de «Estamos a estudar»).

Obs.: Essa conservação não é mera hipótese: estudos históricos baseados em textos de diferentes épocas confirmam que a construção com gerúndio já era usada no português do século XVI e foi posteriormente substituída, em grande parte de Portugal, pela construção com infinitivo precedido de a.

6. Formas populares de 3ª pessoa do plural do pretérito perfeito: andaro, fizero, buscaro, vivero (em vez de andaram, fizeram, buscaram, viveram).

7. Redução do gerúndio: falano, comeno (em vez de falando, comendo).

8. Pronúncia das vogais átonas: boneco e menino (em vez da sua redução ou supressão como em "buneco" e "m'nino").

9. Queda do -r final: amá, comê, saí (em vez de amar, comer, sair).

10. Monotongação: pexe, toro, oro, alejado (em vez de peixe, touro, ouro, aleijado)

11. Palavras influenciadas por diferentes metaplasmos: despois, antonte, inté, ansim, antão, pranta, preguntar, piqueno, milhor, drumi, munto, abobra, home, véio, trabaio, famia, premero, queto, largata, alembrar, assuceder, cumo etc.

Obs.: Essas formas não têm todas a mesma distribuição nem o mesmo estatuto: algumas são populares ou regionais, e outras são variantes históricas. O importante é que sua existência não pode ser explicada simplesmente como um conjunto de desvios inventados pelos brasileiros.

12. Gladstone sustenta ainda que, em vários aspectos, a pronúncia brasileira se encontra mais próxima da pronúncia portuguesa do século XVI do que da pronúncia corrente em Portugal. Destaca, entre outros fatores, a conservação de vogais que em Portugal sofreram enfraquecimento e a diferença de ritmo e de articulação da fala.

A conclusão é clara: antes de condenar um uso brasileiro (formal ou informal), é preciso investigar a sua história, a sua presença no português antigo e a sua sobrevivência nos dialetos portugueses.

Aquilo que hoje parece errado ou estranho a alguns portugueses pode ser, em muitos casos, uma herança antiga da própria língua portuguesa, conservada em alguns espaços geográficos de Portugal até hoje. Quando o brasileiro fala «Eu conheci ela ontem», essa é uma forma popular, coloquial usada pelos próprios portugueses do século XVI, conservada no português brasileiro falado até hoje.

Quanto mais estudamos, mais percebemos que o Oceano Atlântico não é tão grande assim e há mais o que nos une do que aquilo que nos separa, no espaço e no tempo.

Se você quiser realmente se aprofundar no assunto, para dialogar com propriedade e não incorrer em caricatura, sugiro gentilmente que procure (e leia) estas obras, antes de tudo:

1. Clóvis Monteiro — Português da Europa e Português da América (1931); Denominação da Língua Nacional (1948); Fundamentos Clássicos do Português do Brasil (1959).

2. João Ribeiro — A Língua Nacional (1933, 2.ª ed.).

3. Sousa da Silveira — Lições de Português (1934, 2.ª ed.).

4. Sílvio Elia — O Problema da Língua Brasileira ([1940] 1961, 2.ª ed.).

5. Serafim da Silva Neto — Língua, Cultura e Civilização (1960); Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil (1963); História da Língua Portuguesa (1970, 2.ª ed.).

6. Celso Cunha — Uma Política do Idioma (1967); Língua Portuguesa e Realidade Brasileira (1968).

7. Gladstone Chaves de Melo — Alencar e a "Língua Brasileira" (1972, 3.ª ed.); Origem, Formação e Aspectos da Cultura Brasileira (1974); A Língua do Brasil (1981, 4.ª ed.). 

Fonte

Artigo divulgado no Facebook em 17/10/2026 e aqui republicado com ligeiras adaptações, com autorização do autor.

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