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Pelourinho

«Um antiparasitário que foi Prémio Nobel da Medicina»?

Uma compatibilidade semântica (muito) discutível

Os prémios Nobel dão sempre que falar, sobretudo na época do ano, em que anunciados. E fala-se deles por variadíssimas razões, sendo a mais recente a que em Portugal se deve às publicação  de um documento com impacto na disciplina de Português, que integra o currículo nacional. Mas há outros motivos também para deter a atenção noutro tipo de Nobel.

No jornal Sol, de 01/04/2026, lia-se o título de uma notícia, que primeiro podia não suscitar reação mas que depois se estranhava: «... um antiparasitário dos anos 1980, que foi Prémio Nobel da Medicina em 2015».

A falta de reação pode dever-se a que, de modo figurado, a descoberta de um fármaco é entendida como sinédoque: toma-se a descoberta pelo descobridor, e, querendo saber mais, percebe-se que o galardão distinguiu o investigador. 

Contudo, o efeito retórico não funciona, porque choca com as restrições semânticas das expressões que fazem referência ao prémio.

Basta pensar no funcionamento sintático de ganhar: «alguém ganha alguma coisa [um prémio] por (causa) de alguma coisa [um trabalho]».

É verdade que há usos em que o resultado de determinada atuação ou intervenção ganha prémios, e existe o Festival Eurovisao da Canção, cujos vencedores são apresentados quer pelos intérpretes, quer pelas canções a concurso.

Mas os prémios Nobel são geralmente referidos pelos cientistas, investigadores, escritores ou personalidades que os recebem, e não especificamente pelo que motivou a atribuição do prémio. E o padrão de uso da expressão «ser prémio Nobel» é o de identificar o galardoado com o galardão: «o cientista X foi prémio Nobel», portanto, e não «o antiparasitário (descoberto pelo cientista) foi prémio Nobel».

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