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Escrever à Mão

Escrever à Mão
Autor(es) Alexandre Castro Caldas
Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos , 2026
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Neste pequeno grande livro (111 páginas), o neurocientista Alexandre Castro Caldas, professor catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, dá conta da neurofisiologia do ato de escrever à mão, salientando o contributo desta competência para o desenvolvimento neurocognitivo e pessoal dos seres humanos. Reagindo contra o domínio dos teclados de computador e a pressão da Inteligência Artificial, o objetivo é defender a escrita à mão como uma atividade de enorme impacto no crescimento e amadurecimento cognitivo e emocional de qualquer pessoa. 

Alexandre Castro Caldas dá conta de como a invenção da escrita implicou uma verdadeira alteração nas faculdades cognitivas da espécie humana. Para tanto, assinala que, ao longo da história da Humanidade, sistemas de sinais para registo de informação se desenvolveram de forma independente em diferentes regiões do planeta. O aperfeiçoamento de diferentes suportes, do papiro e do pergaminho ao papel, das ferramentas de escrita (cálamo, pena, aparos) e a evolução do próprio material que torna os sinais tangíveis, culminando no uso da tinta para os desenhar, tudo se conjugou para tornar progressivamente mais acessível a redação de apontamentos e mensagens a um número cada vez maior de pessoas alfabetizadas. 

Uma introdução, 13 capítulos e uma conclusão compõem esta pequena obra. Na introdução, avisa-se o leitor de que os capítulos «foram concebidos para poderem ser lidos de forma independente» (p. 12), havendo «textos mais aborrecidos, quando tratam de assuntos da fisiologia do cérebro» (ibidem), mas que o autor considera necessários à compreensão e defesa do tema. Assim, aos capítulos dedicados à relação dos movimentos da mão com o desenvolvimento e a fisiologia do cérebro ("De onde vem a mão que escreve", pp. 13-17; "O motor da mão que escreve", pp. 19-24; "A sensibilidade da mão que escreve" (pp. 25-30); "A mão que escreve, pp. 31-41), seguem-se as páginas a respeito da génese do ato de escrita e da tecnologia associada ("A mão que escreve", pp. 31-41; "Os instrumentos com que a mão foi registando o gesto de escrever ao longo de mais de 5000 anos", pp. 43-46). Vem depois um breve capítulo dedicado ao papel identitário da escrita à mão (pp. 47-49), para o livro regressar ao funcionamento do cérebro na produção manuscrita ("A escrita à mão é um processo de linguagem", pp. 51-55; "A escrita à mão é uma memória de procedimentos", pp. 57-61; "A escrita à mão é um processo multissensorial aprendido", pp. 63-72). O autor discute ainda a aprendizagem da escrita ("A escrita da mão que escreve deve ser legível", pp. 73-82), as patologias que afetam o movimento da mão ("A escrita à mão pode adoecer", pp. 83-89), as línguas gestuais ("A mão que escreve também pode falar", pp. 91-94), a caligrafia ("A arte da escrita à mão", pp. 95-102) e algumas crenças e mitos à volta da mão ("Também se pode ler o que na mão está escrito e o que nela se escreve", pp. 103-106). Na conclusão (pp. 107-108), reitera-se a tese e o apelo centrais a este livrinho: a de que não podemos abandonar a prática e a arte de escrever à mão, pois, entregando o cérebro à facilidade da atual tecnologia, reduz-se «o acesso aos processos associativos do pensamento, diminuindo, potencialmente, o acesso à imaginação». 

Em síntese, Escrever à Mão consegue chamar a atenção para o perigo de descurar uma atividade que, ao longo de milénios, adquiriu uma função estimulante, promotora do exercício reflexivo e criativo da linguagem. É, portanto, um livro que, com argumentos bem fundados, leva qualquer leitor a não desvalorizar as consequências nefastas da supremacia digital na escrita.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa