Deixis, Tempo, Narração
Para uma teoria enunciativa da ficção (2.ª edição)
Por contingências várias, e com muita pena, não posso estar hoje na sessão de lançamento da reedição de Deixis, Tempo e Narração, de Fernanda Irene Fonseca. Ainda ensaiei um ou outro malabarismo para ir ao Porto; mas acabei com o livro (a edição de 1992 ) na mão, a pensar que o que quero mesmo é dizer as razões pelas quais me parece tão importante, e mesmo urgente, a reedição desta obra (obrigada, Sónia Valente Rodrigues, pela iniciativa!).
Dos muitos méritos já ampla e justamente salientados, reitero aqui apenas dois aspetos (de forma muito sintetizada): por um lado, a profundidade do trabalho sobre deixis e teoria da enunciação, através do qual a autora recupera a noção buhleriana de deixis «am Phantasma» e a relança como deixis narrativa ou fictiva, destacando o papel fundamental das «operações de transposição enunciativa» e evidenciando «que a viabilidade da narração e da ficção assentam nas mesmas infra-estruturas linguísticas (...)» (1992, pp. 155-156); por outro, o cruzamento entre linguística e literatura, visto pelo prisma, já apontado, da representação temporal fictiva no romance, mas também por aquele que encara a referência poética como «a forma mais directa» de compreender o «carácter produtivo» inerente a toda a referência linguística (1992, pp. 139-140). São muitos os nomes convocados a este último propósito (nomeadamente Ricœur, Jakobson, Meschonnic, Hamburger, e ainda Óscar Lopes, Vitor Manuel Aguiar e Silva e Herculano de Carvalho, do lado português); mas não posso deixar de destacar a linhagem coseriana em que se inscreve esta linguística aberta à «plenitude funcional da língua».
Se estes são contributos maiores da obra, há outros que se me afiguram hoje de uma enorme, inesperada e provocadora atualidade.
Um deles, diretamente relacionado com a delimitação do tema, surge logo na primeira parte da Introdução: trata-se do destaque dado à memória e à imaginação enquanto fenómenos de natureza discursiva e, como tal, necessariamente intersubjetiva, que resultam da «prática verbal». Importa aqui dizer o óbvio: memória e imaginação são dimensões alheias aos produtos (impropriamente referidos como textos) gerados por inteligência artificial. E ainda que a dita inteligência artificial aprenda a reproduzir memória(s) e a simular (rasgos de) imaginação, podemos sempre perguntar-nos onde fica a dimensão propriamente linguística, discursiva e intersubjetiva, dessas simulações – ou, de forma mais radical, onde terá então ficado a dimensão linguística da espécie propriamente humana. Não esperemos para ver.
O outro aspeto diz respeito a «questões de estilo» e ocupa a segunda parte da Introdução – aquela que, como a própria autora refere, “de acordo com os cânones, deveria ser preenchida por uma exposição sobre «opções teóricas e metodológicas».” (1992, p. 47). Na explanação desta originalidade, Fernanda Irene Fonseca reconhece que se afasta da conceção habitual de rigor: «É este rigor interno que mais me preocupa, um rigor que se corporiza na construção simultânea do objecto e do método – forma que assumem, no âmbito da investigação científica, as noções de conteúdo e forma. Nesse sentido, a este segundo tipo de rigor pode chamar-se estilo» (1992, p. 49). Complementarmente, a autora situa-se na continuidade do contributo de Granger e assume estilo como marca individual num processo de trabalho, o que lhe permite concluir: «Neste sentido, os produtos do trabalho industrial, do fabrico em série, não têm estilo, ou, quando muito, têm-no a um outro nível» (1992, p. 50). Adivinhar-se-á já onde quero chegar: também os produtos (impropriamente referidos como textos) gerados por inteligência artificial são alheios à marca individual de um "trabalho" que não o é; ainda assim, conseguirão talvez o pobre e globalizado estilo veiculado pela vasta quantidade de dados a que falta memória e imaginação. Será o estilo mais um dos bens a preservar, com urgência, numa lógica de sustentabilidade humana?
O último aspeto que quero referir aparece logo na apresentação da edição de 1992. Começa com a evocação de Valéry, que aproxima teoria e autobiografia; passa pela rejeição da «repressão do "eu"», enquanto aparente condição «da seriedade do trabalho científico» (1992, p.16); e converge numa asserção que é um programa de trabalho: «Assumo também, ao usar a primeira pessoa, que o trabalho aqui apresentado faz parte integrante da minha "autobiografia" e está marcado por dois gostos muito pessoais e vividos: o gosto de saber e o gosto de dizer ou, por outras palavras, o desejo de compreender o funcionamento da linguagem sem deixar de a sentir como objecto de fruição» (1992, p.16). Esta é a dimensão que pode ainda desafiar o horizonte (assustadoramente próximo) de uma ciência não humana – uma ciência, pasme-se, «livre dos limites da cognição humana» (OECD 2026, p. 238) .
Obrigada, Professora Fernanda Irene, por preservar um outro horizonte e continuar a apontar um mundo possível: um mundo de pessoas que não se privam de memória nem de imaginação; que não se privam de trabalho nem da capacidade de trabalho com estilo; que não se privam da sua própria história nem dos gostos que a configuram. Um mundo de pessoas que não se privam do poder mediador da linguagem.
N. E. – Texto gentilmente cedido pela autora, com o título original "Uma enorme, inesperada e desafiadora atualidade", para o lançamento desta 2.ª edição de Deixis, Tempo, Narração.
