A pronúncia de Nobel como “Nóbel”
Qual é a culpa do inglês?
Desde os seus primórdios, o Ciberdúvidas tem publicado vários artigos sobre a pronúncia de Nobel. Num artigo de 1997, intitulado "Fugiu o Nobel, ficou o erro", lê-se:
«"Nóbel", porquê "Nóbel" (como se continua a dizer, erradamente, no audiovisual português) se a pronúncia portuguesa é /No-bél/ (o mais aproximada da pronúncia original)?!»
Em 1998, afirmava-se no Ciberdúvidas: "Nó-bel é pronúncia inglesa."
Se os ingleses pronunciam assim, por que razão se diz que os portugueses pronunciam erradamente, como vemos escrito bastas vezes?...
Em 2022, num artigo intitulado "Outra vez a pronúncia de Nobel", partilhado no Facebook, deixei o seguinte comentário:
«POLEMICANDO:
É verdade que o apelido de Alfred Nobel se pronuncia, em sueco, como uma palavra aguda [nobél].
Por ser uma pronúncia sueca, não vejo por que razão se alude a uma regra portuguesa:
“Se Nobel tivesse a tónica na sílaba "nò", teria de ter acento gráfico na vogal o (repare-se que, por exemplo, túnel tem acento no u).”
Segundo alguns dicionários, o apelido sueco Nobel tem origem no adjetivo latino nobilis [nóbilis] («nobre»). Se isto estiver correto, não vejo por que razão se critica tanto a pronúncia portuguesa consagrada pelo uso: “Nóbel”. Julgo não estar errado, se disser que esta questão da pronúncia de Nobel só começou a ser posta em causa desde que Saramago foi distinguido com o Prémio Nobel, em 1998.»
Acresce que, se não houver tradição de adaptação de um nome estrangeiro, não tem ele de ser aportuguesado nem mesmo na escrita. Lembremos que se escreve Vivaldi, e não “Viváldi”, muito embora, à luz da ortografia do português, o acento gráfico se imponha, se o objetivo é pronunciar o nome como palavra grave (paroxítona).
Seja como for, convém também perceber como a influência inglesa é culpada da pronúncia “nóbel”.
A interferência não virá da prolação do nome isolado em inglês, pois, para surpresa de muitos, a transcrição fonética disponibilizada nas versões em linha de dicionários de renome (Oxford, Cambridge, Merriam-Webster) apresenta também acentuação na última sílaba, ou seja, em -bel: [now´bel]. Então, porque se diz que “nóbel” reflete a pressão anglicista?
Na pronúncia inglesa, existe uma regra – a regra do ritmo – que leva a deslocar o acento tónico original da palavra isolada. Esta regra prevê que, na associação de duas palavras, uma paroxítona e outra com sílaba inicial tónica, o acento tónico da primeira recue para evitar a sucessão de duas sílabas acentuadas. Assim, quando o nome Nobel se junta ao nome prize («prémio», que soa “praize”, sendo tónica a primeira sílaba), o acento do primeiro termo recua e Nobel passa a receber um acento secundário na primeira sílaba: “Nóbel prize” (o acento é meramente indicativo, visto que em inglês praticamente não se usam acentos gráficos).
Afinal, o que a pronúncia de Nobel como “nóbel” pode revelar é que o contacto entre línguas pode levar à transmissão de traços e regras que escapam às descrições mais correntes.
N. B. – Informação sobre o inglês recolhida por Carlos Rocha.
