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Diversidades // Moçambique

O português não é do colono

É uma casa que tomámos de assalto

«O colono já não é dono desta língua.»


Se eu pudesse escolher uma língua, talvez escolhesse o suaíli. Sim, talvez fosse essa a língua em que eu gostaria de me pensar inteiro, africano, livre de certos fantasmas, sem o peso histórico de uma herança que não pedi. Mas ninguém escolhe, em absoluto, a língua em que nasce para o mundo. A língua chega antes de nós. Entra pela casa, pela escola, pela rua, pela autoridade, pela mãe, pelo medo, pela ternura, pelo castigo, pelo livro, pela rádio, pelo Estado. Quando damos por ela, já estamos dentro dela.

Nasci num país cuja língua oficial é o português. E digo isto com todo o desconforto que a frase carrega: sou profundamente apaixonado por esta língua. Gosto dos seus labirintos, das suas armadilhas, da sua música, da sua crueldade, da sua precisão, da sua capacidade de dizer o pensamento e, ao mesmo tempo, esconder o que o pensamento ainda não conseguiu dizer. Gosto do português escrito, do português falado, do português pensado em silêncio antes de sair da boca. Gosto de pertencer a esta comunidade enorme, contraditória, luminosa e ferida que se expressa nesta língua.

Ao mesmo tempo, sou moçambicano. E isso não é detalhe.

Cresci a ouvir, do lado materno da minha família, as minhas tias falarem xironga sempre que a vida chamava por ele. O xironga é a língua da minha pertença, da minha raiz afectiva, da minha memória mais antiga, mesmo quando não o domino como gostaria. Percebo. Falo mal. Falo com o sotaque certíssimo e com a gramática a tropeçar. Tenho orgulho, até um orgulho infantil, quando consigo apanhar uma conversa inteira, responder qualquer coisa, entrar por momentos na casa da minha própria língua sem parecer completamente estrangeiro.

Aquele “r” preso, aquela forma de puxar a palavra, aquela cadência que vem da boca dos nossos mais velhos, carregam uma beleza que reconheço antes mesmo de compreender. Às vezes falo mais o som do xironga do que a língua. Mas esse som também é pertença. Essa tentativa também é memória. Essa insuficiência também sou eu.

Gostaria, naturalmente, que as nossas línguas fossem aprendidas nas escolas com dignidade. Não como enfeite cultural, não como concessão folclórica, mas como património intelectual do país. O problema é que Moçambique não cabe numa simplificação. Somos um país de muitas línguas, muitas geografias, muitas pertenças. Falar de ensino bilingue, num país com dezenas de línguas nacionais, exige seriedade, estratégia, dinheiro, formação de professores, produção de materiais, respeito pelas comunidades e coragem política. Não se resolve com gritos fáceis nem com discursos de ocasião.

Para o bem e para o mal, o português tornou-se a língua que nos permite atravessar o país de norte a sul. Não é a língua mais inocente. Não é a língua mais pura. Não é a língua que nos nasceu do chão antes da violência colonial. Mas é a língua em que, hoje, muitos moçambicanos se encontram fora da sua própria província, da sua própria etnia, da sua própria casa. É língua de Estado, de escola, de jornal, de tribunal, de literatura, de insulto, de amor, de emprego, de protesto, de crónica, de manifesto e de mentira oficial.
Carrego, portanto, uma contradição que não me abandona.

Amo a língua que o colono me deixou.

Amo-a sabendo que ela veio com o império, com a catequese, com a palmatória, com o mapa desenhado por outros, com a administração, com o assimilado, com a humilhação de quem teve de provar humanidade falando a língua do dominador. Amar esta língua, para um africano, nunca pode ser um acto ingénuo. Existe sempre uma marca. Um brasão invisível. Uma ferida antiga. Qualquer coisa parecida com esses sinais que se gravavam nos corpos para dizer posse, domínio, pertença forçada.

Eu não queria ter de amar esta língua.

Mas amo.

E talvez seja precisamente aí que começa o meu desassossego.

Não domino as muitas línguas do meu país como gostaria. Não sei falar com a mesma profundidade as línguas que talvez devessem ter sido a minha casa natural. Conheço fragmentos, sons, palavras, ritmos, restos de conversa, memórias de família, afectos. O português, pelo contrário, tornou-se o lugar onde penso, onde escrevo, onde argumento, onde me indigno, onde procuro beleza, onde tento sobreviver à mediocridade do mundo.
Conforta-me saber que não estou sozinho nesta contradição. Eduardo White devolve-me a língua portuguesa como quem devolve água a uma boca africana. João Paulo Borges Coelho mostra que se pode pensar Moçambique com uma arquitectura verbal de grande exigência. Álvaro Carmo Vaz, Rui Nogar, José Craveirinha, Mia CoutoUngulani Ba Ka Khosa e tantos outros ensinaram-nos que o português, nas nossas mãos, deixou de ser apenas língua herdada; tornou-se também língua ocupada, mexida, desviada, moçambicanizada, posta a caminhar com poeira nos pés.

E depois vêm os outros amores, aqueles que não consigo negar mesmo quando me lembro da história. António Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Camões. Gente diante da qual, confesso, me sinto às vezes como quem entra numa igreja literária. Não por subserviência cultural, mas porque a grandeza da língua, quando é grandeza verdadeira, obriga-nos a uma espécie de reverência.

A minha paixão pelo português deve muito aos professores que tive. Professora Olga Neves. Professora Maria João. Professora Dalila Cunha. Professor Latifo. Gente que me ensinou que a língua não é apenas instrumento. É disciplina, respeito, ouvido, construção, paciência, rigor. Aprendi com eles a ter uma relação quase física com a frase. A sentir quando uma palavra está fora do lugar. A perceber que escrever não é despejar pensamento; é organizar respiração.

Sou, nesse ponto, talvez mais conservador do que muitos esperariam de mim. Gosto da língua no rigor da sua espinha. Gosto da concordância bem feita, do verbo no sítio, da pontuação que respira, do pronome que não se perde, da frase que sabe para onde vai. Posso discordar ideologicamente de alguém e, ainda assim, admirar-lhe a escrita. O professor Zé Teixeira, por exemplo, muitas vezes está em campos que não são os meus, defende ideias que posso combater com toda a força, mas reconheço-lhe um domínio da língua, uma elegância conservadora de escrita, uma espécie de respeito antigo pelo português que me obriga a continuar a lê-lo.

A língua também nos prende aos adversários quando é bem usada.

O que me incomoda, cada vez mais, é o destroço que vamos fazendo ao português em Moçambique, muitas vezes com a desculpa preguiçosa da identidade, da oralidade, do sotaque, da criatividade ou da liberdade. Não falo de sotaque. O sotaque é riqueza. O sotaque é geografia na boca. O sotaque é prova de vida. Gente do norte pode falar português com uma musicalidade própria e escrevê-lo de forma brilhante. Gente do centro pode dar ao português uma cadência que Lisboa nunca terá. Gente do sul pode dobrar a frase com a respiração das línguas bantu sem a destruir.

Isso é beleza.

Outra coisa é falar mal e chamar a isso identidade.

Outra coisa é escrever mal e chamar a isso liberdade.

Outra coisa é torturar a língua e, quando alguém reclama, acusar essa pessoa de colonialismo linguístico.

Não aceito essa chantagem.

A língua portuguesa em Moçambique não precisa ser falada como se estivéssemos em Coimbra, Lisboa ou no telejornal da RTP. Precisa, sim, ser respeitada. Precisa ser ensinada. Precisa ser trabalhada. Precisa ser habitada com dignidade. Podemos criar palavras, torcer ritmos, introduzir moçambicanismos, dar-lhe corpo nosso, alma nossa, humor nosso, nervo nosso. Mas inovação não é ignorância. A oralidade não é desculpa para indigência. A criatividade não absolve a incompetência.

Todos os dias oiço pequenas agressões à língua que já nem parecem incomodar ninguém. “Purada” em vez de porrada. “Muro” quando se queria dizer murro. “Dficél” como se difícil fosse palavra sem ossos. “Corer” onde devia estar correr. “Buro” quando até o nosso mbongolo merecia mais respeito. Não falo de uma pessoa que tropeça porque aprendeu tarde, porque vem de outra língua materna, porque não teve acesso à escola ou porque carrega as marcas duras da exclusão. Esse julgamento seria cruel e ignorante. Falo de uma normalização pública da falta de cuidado. Falo de locutores, dirigentes, comentadores, comunicadores, licenciados, gente com palco, microfone, cargo e responsabilidade a tratar a língua como se fosse capulana velha atirada ao chão.
Uma coisa é a língua popular.

Outra coisa é o desleixo institucionalizado.

O português moçambicano existe e ainda bem que existe. Tem palavras nossas, construções nossas, humor nosso, rua nossa, bairro nosso, chapa, txova, machimbombo, xitique, matapa, nhonguista, maningue, confusão, desenrascanço, invenção. Esta invasão da nossa geografia dentro da língua portuguesa é uma das coisas mais belas que fizemos com a herança colonial: pegámos na língua que nos chegou como imposição e começámos a enchê-la de Moçambique.

Mas isso não substitui o português. Enriquece-o.

Não precisamos destruir a casa para provar que ela agora também é nossa.

Li há dias, num desses debates que aparecem como febre, a defesa de uma tal «língua geral». Podia comentar com aparato académico, citar autores, invocar teorias, vestir o argumento com casaco universitário. Mas vou dizer como me veio à alma: que estupidez, camba Agualusa. Estupidez na minha opinião, naturalmente. Porque uma língua geral fabricada por decreto, por ressentimento ou por preguiça intelectual não resolve o problema da nossa pluralidade. Apenas cria uma ficção cómoda para não enfrentarmos o trabalho real: ensinar melhor o português, proteger melhor as línguas nacionais, formar professores, produzir literatura, fazer dicionários, respeitar as línguas maternas, exigir qualidade na comunicação pública e aceitar que a identidade moçambicana não cabe numa única solução linguística.

Defender o português não significa desprezar o xironga, o changana, o emakhuwa, o cisena, o echuwabo, o elomwe, o gitonga, o nyanja, o ndau, o kimwani ou qualquer outra língua deste país. Pelo contrário. Só quem respeita verdadeiramente a linguagem compreende que cada língua é uma forma de mundo. A defesa séria das línguas nacionais não precisa do assassinato simbólico do português. Precisa de política pública, orçamento, investigação, escola, literatura, rádio, televisão, orgulho e uso real.

O que me irrita é a falsa oposição.

Como se amar o português fosse trair África.

Como se exigir português bem falado fosse defender o colono.

Como se respeitar a gramática fosse renunciar à moçambicanidade.

Não. O colono já não é dono desta língua. Se ainda fosse, Craveirinha não a teria ferido com tanta beleza. Se ainda fosse, Mia Couto não a teria virado do avesso. Se ainda fosse, Eduardo White não teria feito dela uma espécie de febre luminosa. Se ainda fosse, nós não a estaríamos a usar para insultar o próprio colonialismo, criticar o poder, escrever livros incómodos, fazer humor, pedir contas, amar Maputo, chorar Cabo Delgado, defender Moçambique.

A língua portuguesa já não é apenas a língua que nos foi imposta.

É também a língua que tomámos de assalto.

Precisamente por isso, devemos tratá-la bem.

Não por servilismo.

Por conquista.

Quem conquista uma casa não a deixa cair aos pedaços só para provar que ela já não pertence ao antigo dono. Repara-a, ocupa-a, pinta-a com as suas cores, abre-lhe janelas, muda-lhe o quintal, planta nela as suas árvores, dá-lhe filhos, dá-lhe barulho, dá-lhe comida, dá-lhe memória. O português, em Moçambique, deve ser isso: uma casa conquistada, não uma ruína celebrada.

Continuarei a amar o xironga que não domino como devia. Continuarei a lamentar não falar as muitas línguas do meu país. Continuarei a achar que o suaíli talvez me desse uma outra relação com África. Continuarei a desconfiar da ferida colonial que vive dentro do meu amor pelo português.

Mas continuarei, sobretudo, a defender esta língua que me ficou na boca.

A defendê-la dos que a usam para dominar.

A defendê-la dos que a usam para excluir.

A defendê-la dos que a querem congelar em Lisboa.

A defendê-la dos que a querem matar em nome de uma falsa libertação.

A defendê-la, sobretudo, do desleixo.

Porque uma língua maltratada acaba por maltratar o pensamento.

E um país que se habitua a falar mal, escrever mal e pensar mal começa, sem se aperceber, a aceitar viver mal.

Fonte

Texto publicado no Facebook em 20 de junho de 2026.

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