DÚVIDAS

ARTIGOS

O nosso idioma // Língua, cultura e sociedade

A morte da língua portuguesa 

Às vezes acordo de madrugada convencido de ainda existir alguém: um homem em Bragança a abrir a janela para o frio, uma mulher em Olhão a sacudir uma toalha na varanda, um miúdo qualquer a dizer fogo ou bolas (para não dizer outra coisa) ao deixar cair o copo de leite no chão.

E fico imóvel na cama, à escuta, como os velhos a encostar o ouvido aos búzios julgando ouvir o mar, e não ouço nada.

A língua portuguesa termina comigo. Não morreu numa explosão, numa guerra, numa biblioteca incendiada. Foi diminuindo.

Primeiro os emigrantes a esquecerem as palavras, os verbos, as expressões, a saudade.

Depois os filhos dos emigrantes a responderem noutras línguas quando lhes perguntavam sobre Portugal, um país transformado numa fotografia sépia esquecida no fim de uma gaveta no fim do mundo, no fim de uma viagem, para não mais voltar.

E agora eu, o último, a falar sozinho na cozinha como os doidos dos bairros do antigamente.

Há sempre um doido.

Havia sempre um doido.

Só resta um doido.

Digo «cadeira» para a cadeira. Digo «janela» para a janela. Digo «saudade» e a palavra regressa-me vazia, sem eco, como uma moeda atirada a um poço de onde roubaram o fundo.

Telefono para a polícia para denunciar o furto, mas ninguém fala em português, e eu fico sozinho a chorar os vinte cêntimos perdidos no fundo do poço sem fundo, talvez caída no chão algures do lado de lá do mundo.

Não atirasses a moeda.

As palavras fazem sentido enquanto houver alguém do outro lado para as receber e devolver. Uma palavra sem resposta é um abraço por dar, um desejo por cumprir, uma cicatriz no coração.

Penso em Portugal constantemente, talvez porque deixar de existir um país comece no instante no qual deixa de haver quem o nomeie.

Se eu morrer esta noite ninguém voltará a dizer «Tejo» daquela maneira líquida, com o “é” aberto como uma vela ao vento. Ninguém dirá «Trafaria», «Alentejo», «Gerês», «Sines», «Monchique». Os lugares continuam decerto, as pedras continuam, o mar continua a bater contra os molhes, mas deixarão de possuir esta música só nossa. Um estrangeiro pode olhar a Nazaré e ver apenas água e casas. Nós víamos a infância inteira presa nas redes dos pescadores.

Tenho medo. Não da morte. Medo da ausência, e na ausência a morte em vida.

Porque uma língua morre duas vezes: primeiro quando a enterram, segundo quando deixa de ser pronunciada, elaborada, desenrolada na areia, na praia, ao sol num dia de praia.

E já não há praia. Ou há, mas não em português, não em Portugal.

Às vezes passeio junto ao mar e apetece-me falar alto para o vento na esperança do vento conservar qualquer coisa.

Digo frases inúteis: está frio hoje, a maré vai subir, cuidado com as rochas. Como se o Atlântico fosse uma velha cassete capaz de gravar as sílabas antes do silêncio.

Imagino as ondas a repetir os restos das vozes dos marinheiros na faina com Iemanjá, a repetir os pregões das mulheres nas lotas, os protestos dos bêbados às três da manhã em Alfama, os professores cansados a fazer a chamada nas escolas: um país inteiro transformado em espuma.

E depois a comida. E a tristeza inexplicável de não ter mais ninguém a quem pedir um caldo verde, um arroz de polvo, uma sardinha assada a cheirar ao fumo a subir pelas ruas de Junho. Não é a receita a desaparecer. É o gesto. A maneira de uma mãe empurrar o prato para o filho dizendo «come antes que arrefeça». As línguas morrem também à mesa.

Dou por mim a traduzir mentalmente as palavras para ninguém. Vejo gaivotas e digo «gaivotas» embora pudesse usar outra palavra qualquer mais útil ao mundo. E insisto. Talvez por teimosia. Talvez porque dentro de cada idioma existe uma forma particular de olhar a chuva. E só em português é possível colher um sorriso com o orvalho da manhã.

E, no entanto, o pior não é não ter com quem falar. O pior é não haver ninguém capaz de compreender a memória. Como explicar noutra língua o cheiro das escadas antigas? Como explicar o barulho dos talheres num almoço de domingo? Ou então uma avó sentada à porta de casa a comentar a vida dos vizinhos enquanto o calor do verão verga o ar das ruas? As traduções são mapas desenhados por gente ignara de um país.

Agora, às portas da morte, imagino-me numa praia vazia. Não uma praia real. Uma praia feita de recordações. As pegadas são minhas e atrás delas o mar apaga tudo devagar. Nenhuma criança corre. Nenhum rádio toca música pimba ao longe. Nenhum homem grita «Ó chefe, duas imperiais».

Ou três.

Apenas eu, o último português, a caminhar junto à água.

E quando cair finalmente na areia talvez a última palavra desapareça comigo, pequena e frágil como a luz de um barco ao longe. Talvez ninguém perceba ter nesse instante perecido uma maneira inteira de abraçar o mar.

Quando o último falante da língua portuguesa morreu, o mar invadiu a terra, engoliu as praias, as terras, as casas, as estradas e os montes, e quem diz montes diz as montanhas e os rios também até à raia, até à fronteira...

Fonte

Na imagem, "Praia do Abano (Alcabideche, Cascais)", aguarela do ilustrador e professor de Desenho Pedro Salvador Mendes

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa