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O nosso idioma // Fonética e fonologia

Os movimentos da pronúncia de gato

A facilidade de uma atividade complexa

AparelhoFonador.GIFVocê já parou para pensar no que está por trás da pronúncia de uma palavra simples como gato?

Primeiro, as cordas vocais se fecham e a parte posterior da língua sobe e encosta no véu palatino (na parte de cima do fundo da boca), obstruindo a passagem de ar. O ar então sai dos pulmões, faz as cordas vocais vibrarem e a língua se desprende do véu palatino subitamente, deixando o ar represado no fundo da boca sair de uma só vez (é o [g]). Em seguida, a língua baixa completamente e a boca se mantém aberta, deixando o ar passar, ainda com as cordas vocais fechadas e vibrando ([a]). Depois disso, as cordas vocais se abrem totalmente, a ponta da língua encosta na parte de cima da boca, logo atrás dos dentes (na arcada alveolar), de modo que o ar que vem dos pulmões, represado neste ponto, seja solto todo de uma vez quando a língua se despega da arcada alveolar. Aqui, as cordas vocais não vibram ([t]). Ato contínuo, as cordas vocais se fecham mais uma vez, a parte posterior da língua se ergue, mas sem encostar no céu da boca ou no véu palatino, e os lábios se arredondam. O ar passando faz as cordas vocais vibrarem novamente ([u]).
Tudo num só fôlego.

Agora, imagine quantos movimentos das cordas vocais, da língua e dos lábios são necessários para pronunciar a frase «o gato caiu» ao juntar o artigo o ao substantivo gato e, depois, «o gato» ao verbo caiu. E se a frase fosse «o gato caiu do telhado»?

Se você acha que isso não é nada, saiba que, para pronunciar só o segmento [n] da palavra nada, precisamos fechar as cordas vocais, impedir a saída, pela boca, do ar vindo dos pulmões encostando a língua na arcada alveolar e baixar o véu palatino de modo que esse ar escape pelo nariz continuamente... Ou seja, além da língua, lábios e cordas vocais, às vezes precisamos também mover o véu palatino para produzir certos sons. E ainda há outros mais complicados de pronunciar, como [s] e [z], que as crianças, quando estão adquirindo a primeira língua, têm dificuldade em pronunciar.

Pense em quantos movimentos desses articuladores precisamos fazer na conversa mais corriqueira, inconscientemente! Não é incrível a facilidade com que realizamos uma atividade tão complexa? 

Fonte

Artigo do projeto Nós da Linguística, publicado no Facebook (20/04/2026).

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa