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Entre moda e língua: uma análise do termo outfit

e alternativas em português

O termo inglês outfit, hoje amplamente usado em português, sobretudo nas redes sociais e no mundo da moda, designa o conjunto de roupas e acessórios que uma pessoa veste num determinado momento. Apesar de estar tão presente no vocabulário quotidiano, importa olhar para a sua origem e questionar a sua necessidade e alternativas em português.

Etimologicamente, outfit surge no inglês em 1769 com o sentido de «equipar, aparelhar (um navio, etc.) para uma expedição» (Etymonline). A ideia de «artigos e equipamentos necessários para uma expedição» foi registada a partir de 1787, em inglês norte-americano, o que levou a significados mais amplos. A aceção de «roupas/conjuntos de roupa de uma pessoa» apareceu em 1852 e, ainda, um outro sentido foi documentado em 1883: a de «grupo de pessoas» (ibidem). A partir daí, difundiu-se internacionalmente, em grande parte por influência da cultura de moda e dos meios de comunicação.

Em português, outfit começou por circular em contextos ligados à moda, ao estilo de vida (lifestyle, outro anglicismo muito difundido) e ao marketing (mais outro) digital. Tornou-se comum em frases como «O meu outfit hoje» ou «Inspire-se nos nossos outfits da temporada». A frequência e aparente brevidade da palavra em ambientes virtuais contribuíram para que muitos falantes a adotem sem reflexão.

Contudo, teria o português recursos próprios para exprimir a mesma ideia sem recorrer a um estrangeirismo? De facto, existem várias alternativas adequadas, algumas delas variando conforme a região ou contexto: «conjunto de roupa» (Portugal), visual (muito comum no Brasil), indumentária (mais formal), traje (frequente em contextos profissionais, cerimoniais ou regionais). Assim, em vez de dizer «Adoro este outfit», podemos dizer «Adoro este conjunto de roupa», «Adoro este visual» ou «Gosto deste traje», sem que haja perda de sentido.

O uso automático de outfit não é apenas uma questão de moda ou estilo: recorrer a estrangeirismos sem pensar pode empobrecer a língua e dificultar a compreensão, sobretudo para quem não domina o inglês. Sempre que existe uma alternativa adequada em português, vale a pena escolhê-la.

Portanto, embora outfit já faça parte do léxico de muitos falantes, isso não significa que seja necessário ou incontornável em português. Optar por aportuguesamentos ou traduções em português preserva a riqueza da língua e garante clareza para todos os leitores.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa