Do palhaço Anhuk ao nome anhuca
A história de um epónimo
No dia 28 de dezembro de 2025, no programa da CMTV Liga d’Ouro, Ricardo Tavares, um dos comentadores residentes, referiu-se, a dado passo, a um treinador de futebol, creio que a José Mourinho, dizendo, e cito de memória, algo como: «ele não é anhuca», com o sentido de ele não é tolo, néscio, pateta ou similar. Não foi, aliás, a primeira vez que lhe ouvi tal palavra e, creio que, tirando a ele, já não a ouvia há muitos anos, talvez mesmo desde a minha infância ou adolescência.
A palavra está já até dicionarizada. Refere a Infopédia que é um nome popular, de
dois géneros, com o sentido de: «pessoa ingénua, pouco desembaraçada ou apalermada».
No Web Dialects do Corpus Davies – que reúne mil milhões de palavras em páginas da Web de quatro países de língua portuguesa (Brasil, Portugal, Angola e Moçambique) –, surgem seis referências a anhuca, todas de blogues portugueses, sendo que três delas são no mesmo post. Anhuca era o nome artístico de um palhaço português, cuja carreira teve o seu apogeu no anos 50 e 60 do século XX, fazendo dupla com Vasquito. Vasquito encarnava a figura do palhaço rico e Anhuca a do palhaço pobre.
Como é habitual, para estabelecer contraste, o palhaço rico veste sempre roupa de bom corte, justa e elegante, ainda que excessiva, com trajes luzidios e feéricos, encarnando o janota, enquanto o palhaço pobre veste em regra sapatos desmesuradamente grandes, trajes largueirões, sem sombra de elegância, descuidados, por vezes até andrajosos, encarnando o desleixado, o desmazelado, ou mesmo o maltrapilho. Por essa razão, anhuca
também é usado para nos referirmos a alguém que veste roupas largas e deselegantes, sentido que também claramente recordo ser usado na minha infância e adolescência, e que a Infopédia não acolhe.
Também na caracterização, o palhaço rico aparecia sempre impecavelmente empoado e
pintado – com pó de arroz, batom e rímel perfeitamente delineados – enquanto o palhaço
pobre aparecia pintado com uma maquilhagem desleixada ou exagerada. Essa memória ainda permanece em Portugal, como se vê, em texto e imagem, num post de um blogue em que, para amesquinhar o antigo Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, este surge referido e representado como um palhaço pobre ou anhuca, com o rosto empoado e uma pintura esborratada. Ainda na luta política, num post do X, com poucas semanas, referindo-se ao atual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, afirma-se, aqui com o
sentido de «tolo»: «Mas Portugal tem o Anhuca como Primeiro-Ministro», o que prova que, apesar de pouco curso, a palavra mantém-se viva, não desapareceu e continua a ser usada para ridicularizar, caricaturar ou desvalorizar alguém, mantendo o seu valor expressivo. Há mesmo um blogue designado As profecias do Anhuca, que,
pegando no sentido original do termo, o leva até ao sobrenatural e ao grotesco.
Refira-se ainda que, novamente no Corpus Davies, mas agora no Género Histórico – que reúne 45 milhões de palavras de obras literárias dos séculos XIII ao XX, e também, para o século XX, de textos orais, ficcionais, jornalísticos e académicos – não surge qualquer referência a anhuca, o que pode significar que, apesar de dicionarizada, a palavra não entrou ainda nos registos mais formais da língua. Também o CETEMPúblico não apresenta qualquer referência a anhuca, o que reforça a tese de que a palavra tem um curso quase exclusivamente informal. Não é, pois, de estranhar que a primeira vez que a surpreendemos num registo jornalístico seja na televisão, num programa desportivo, assente numa conversa marcadamente coloquial entre vários participantes habituais.
Dos dicionários que consultámos, exceção feita à Infopédia, nenhum apresenta o termo. Nem sequer o Dicionário informal, ainda que tal não seja de estranhar, pois o mesmo é de matriz brasileira e a palavra parece ter apenas curso no Português Europeu e não no Português do Brasil.
Numa fotografia de Anhuca, publicada num jornal da época, que não conseguimos identificar, o nome surge grafado como Anhuk, podendo este ter passado ao idioma como Anhuca, num processo de adaptação fonológica e morfológica em que o k foi substituído pelo c, adicionando-se, por paragoge, um a final. Anhuk ou Anhuc, o seu nome artístico, era, aliás, um anagrama imperfeito do seu verdadeiro apelido, Cunha1.
O epónimo anhuca, nome comum derivado do nome próprio Anhuk ou Anhuca, que se fixou na linguagem popular representando as características decorrentes da sua performance, diz bem da força que a persona artística do palhaço Anhuca ganhou no imaginário popular e que, apesar de alguma perda por parte das novas gerações, ainda hoje permanece.
O termo anhuca demonstra à saciedade como uma figura popular, no caso do mundo do
espetáculo, pode ter um impacto cultural suficientemente significativo para gerar um nome comum, reconhecível décadas depois, cristalizando-se no léxico, primeiro na oralidade e depois na escrita informal, até ganhar honras de verbete num dicionário normativo.
1 Esta informação foi-nos confirmada por Jorge Santos, bisneto de Anhuk ou Anhuca, a quem agrademos a disponibilidade com que nos respondeu.
